quinta-feira, julho 13, 2006

As mil imagens da palavra

Quantas imagens cabem na palavra: amor?
Quantas imagens cabem na palavra: luz?
Quantas imagens cabem na palavra: vida?

Quantas palavras uma imagem impede de serem ditas?

domingo, julho 02, 2006

Voltando a ser resenhista

No capítulo das retomadas, a principal foi a da atividade de resenhista. Primeiro com este blog, pelo simples desejo de reencontrar a literatura. Depois, procurando antigos contatos, cheguei ao Globo. Minha primeira resenha publicada em papel pode ser vista aqui: http://tinyurl.com/m36rf.

Escrever sobre livros e literatura gera um sentimento de plenitude e realização que nenhuma outra atividade provoca.

terça-feira, maio 30, 2006

A história de Despereaux, Kate DiCamillo

A história de Despereaux, que conta o que aconteceu com um camundongo uma princesa, um pouco de sopa e um carretel de linha.
Kate DiCamillo, com ilustrações de ilustrações de Timothy Basil Ering, tradução de Luzia Aparecida dos Santos, revisada por Monica Stahel. São Paulo, Editora Martins Fontes, 2005.
Título original: The Tale of Despereaux. ISBN: 85-336-2162-0


Esse é um livro que merece um lugarzinho especial na estante. Os Pequenos Leitores estão alfabetizados e começam a ter mais fôlego. O Pequeno Leitor tem demonstrando uma grande facilidade nesse terreno. Com dois meses de alfabetização, mostra-se ávido por letras, nada escapa ao seu ímpeto leitor. A história de Despereaux chegou à família como um presente para a Pequena Leitora. O livro está sendo lido aos pouquinhos, em leituras orais noturnas. No entanto, ontem ele demonstrou sua força.
Depois que a Pequena Leitora adormeceu, o que acontece bem rapidamente, em geral, basta uma página, o Pequeno Leitor quis continuar. Li mais três capítulos e disse que estava com sono. Mas ele quis continuar. Disse então que ele lesse por sua conta, pois eu ia dormir. E ele quis continuar. Não se fez de rogado e atracou-se com o livro. Alternou leitura em voz alta, murmurada e para si. Não queria largar a história do camundongo Despereaux. A leitura trôpega, sílaba a sílaba, palavras difíceis, quebras de palavras em quebras de linha. Nada o impediu. Quis ir para a minha cama, quis ir para a mesa onde A Leitora estudava, voltou para a minha cama. Os olhos ficaram vermelhos e lacrimejantes pelo esforço. Mas não se deteve. Foi preciso um ultimato, pois o dia seguinte começava cedo e era preciso dormir.

Acontece que o livrinho é sensacional. Fazia tempo que não encontrava um texto literário com tamanha pureza e profundidade. Uma profundidade singela, se é que isso é possível, e delicada. A autora está contando uma história e faz questão de deixar isso claro. Fala ao leitor o tempo todo. Um leitor que precisa ser instruído, mas que é capaz de aprender:
"(...)Você sabe o que significa empático?
Pois vou lhe dizer. Ao ser levada para o calabouço, com uma faca enorme apontada para as costas, tentando manter a coragem, ainda assim a princesafoi capaz de pensar na pessoa que está segurando a faca.
Ela pensava: "Pobre mig, ela quer tanto ser princesa e acha que assim vai conseguir. Pobre Mig. Como será desejar alguma coisa tão desesperadamente?"
Isso, leitor, é empatia.
E agora você tem um pequeno mapa do coração da princesa (ódio, dor, gentileza, empatia), o coração que ela carregava ao descer a escada dourada, ao atravessar a cozinha e, finalmente, quando o céu lá fora começava a clarear, ao chegar à escuridão do calabouço com o rato e a criada"
A jovem princesa chama-se Ervilha. A jovem e gorducha criada chama-se Migalha Sementeira. Existe um camundongo heróico, Despereaux, e um rato maldoso, Chiaroscuro, ou Roscuro. Além da delicadeza do estilo, até mesmo ao narrar mortes, acidentes e assassinatos, o que me agradou bastante foi o desenho dos personagens. Digo desenhos de propósito, pois ela revela as ambivalências dos sentimentos, os "mapas dos corações" com muita clareza. As ações do vilão, dessa forma, podem ser perdoadas, ou antes, compreendidas, pois a autora mostra que sua motivação é inocente, ainda que suas ações sejam condenáveis.
Lembro dos estudos de teoria literária, em que havia uma classificação entre personagens planos e redondos. Os planos são aqueles personagens contínuos, que começam e terminam uma história com o mesmo caráter, que não trazem surpresas. Os redondos são personagens de várias faces, que se mostram conforme a luz incide sobre eles. Capazes de se transformar. O mergulho na luz e na escuridão dos personagens de Despereaux mostram o seu percurso interno de aprendizagem, de todos eles. O ambiente principal da história, um castelo dividido entre as luzes dos salões, a penumbra da cozinha e a escuridão do calabouço, é o cenário perfeito e didático para a representação dos movimentos dos personagens. A simetria entre Despereaux e Roscuro é interessante, pois, tanto a descida ao calabouço do camundongo, quanto a ascensão aos salões iluminados do rato acabam por aproximá-los e os antagonismos são desfeitos. Esse não é um final óbvio em um livro infanto-juvenil. Mas, não se trata de um livro óbvio. A felicidade do final não é do tipo "para sempre", mas sim uma situação de retorno a um equilíbrio não garantido.
Um último comentário. Despereaux salva-se da morte no calabouço por ter uma história para contar. E, como lhe diz o carcereiro, "Histórias são luz. A luz é preciosa num mundo tão escuro. Comece do começo, conte uma história para Gregório. Faça alguma luz."
Por que será que gostamos tanto de histórias?

domingo, maio 28, 2006

Registro de leituras

E o pulso ainda pulsa...

  • A ocasião, Juan Jose Saer, li faz uns dois ou três meses. Ficou em cima da mesa, está me chamando, vou acabar comentando.

quinta-feira, abril 06, 2006

Afinal de contas...

Quem se interessa por literatura?

(e muito o menos pelo que se publica aqui ;-)

Evoé!

Outro do Paulo Henriques Britto, em Macau

"A quem possa interessar", Paulo Henriques Britto, em Macau

 

“A quem possa interessar”? Por aí
não se chega jamais a parte alguma.

O impulso é de outra espécie: uma pressão
quem vem de dentro, e incomoda. No fundo

é só isso que importa. O resto é o resto.
E no entanto nesse resto está o múnus

público da coisa – vá lá o termo -
o que dá trabalho, o que impõe um custo

sem benefício claro à vista, e às vezes
acaba interessando até quem nunca

se imaginou como destinatário
de uma – digamos assim – “carta ao mundo”,

que é o que a coisa acaba sendo e tendo sido
desde o começo. Como sempre. Como tudo.

quinta-feira, março 30, 2006

Um pulo no Afeganistão

O caçador de pipas

Khaled Hosseini

Tradução de Maria Helena Rouanet

Editora Nova Fronteira

 

Apenas uma nota rápida, pois tenho que trabalhar.

Acho surpreendente este livro estar há tanto tempo na lista dos mais vendidos. O livro é bom, aliás, é muito bom. Mas a história é triste e dura. Aliás, como escrever sobre um país como o Afeganistão de forma leve?

 

Fica a pergunta: o que vem atraindo tantos leitores para ele?

quarta-feira, março 22, 2006

na verdade, uma outra forma de vida

BIODIVERSIDADE

Paulo Henriques Britto, Macau, ed. Companhia das Letras

Há maneiras mais fáceis de se expor ao ridículo,

que não requerem prática, oficina, suor.

Maneiras mais simpáticas de pagar mico

e dizer olha eu aqui, sou único, me amem por favor.

Porém há quem se preste a esse papel esdrúxulo,

como há quem não se vexe de ler e decifrar

essas palavras bestas estrebuchando inúteis,

cágados com as quatro patas viradas pro ar.

Então essa fala esquisita, aparentemente anárquica,

de repente é mais do que isso, é uma voz, talvez,

do outro lado da linha formigando de estática,

dizendo algo mais que testando, testando, um dois três,

câmbio? Quem sabe esses cascos invertidos,

incapazes de reassumir a posição natural,

não são na verdade uma outra forma de vida,

tipo um ramo alternativo do reino animal

quarta-feira, janeiro 18, 2006

O jogo da amarelinha - uma experiência radical de leitura (Uma despedida?)

Algumas coisas tem data e momento certo para acontecer. Minha primeira leitura de O jogo da amarelinha, por exemplo. Eu tinha uns 18 ou 19 anos. Havia passado no vestibular, para o segundo semestre. Tinha livre alguns meses, que foram dedicados a três atividades decisivas em minha vida: um curso de datilografia, conquistar aquela que viria a ser minha esposa e ler O jogo da amarelinha.

Para me manter dentro do tema do blog, falo apenas da última. Eu tinha muito tempo livre e um livro pesado para me acompanhar. Iniciei a leitura pela ordem sugerida do autor, indo e voltando de um lado para outro, intercalando capítulos, mergulhando em um universo cada vez mais denso de personagens estranhos, exóticos, incrivelmente inteligentes e cultos. As discussões do Clube da Serpente deixavam-me perplexo. Falavam de coisas, realidades, altamente intelectuais. Uma literatura muito diferente daquela feita pelos escritores brasileiros da década de 80, por exemplo. Cortázar diz que o livro antecedeu seu período de maior engajamento político, o que talvez explique o tom existencial do romance, profundamente filosófico. Eu fiquei encantado pelo desfile cultural de artes plásticas, filosofia, jazz, música clássica. Como tudo aquilo criava o cenário parisiense daquele bando de exilados. Como as citações e análises não apareciam gratuitamente, mas dentro do contexto de discussões e questionamentos altamente pertinentes para a vida daquelas pessoas e, principalmente, para a vida de Horácio Oliveira, o protagonista.

Mesmo o ir e vir entre os capítulos tinha uma razão de ser, não se tratava apenas de uma brincadeira estética, um experimento narrativo. Era algo que funcionava. Criava um caminho intrincado de leitura, que ia me arrastando para dentro do livro.

Eu morava em uma casa em meio a um grande quintal. Ao lado da minha mesa de estudos e trabalho, havia uma janela que dava para um verde bambuzal. Pois, em um determinado momento da leitura, fechei as duas janelas do meu quarto. Fechei a porta. Deixei apenas uma pequena luminária apontada para as páginas do livro. Tratava-se de uma relação com a leitura que eu ainda não havia experimentado. Para não me confundir, ia marcando com um X os capítulos já lidos, como as pedrinhas deixadas pelo caminho por João e Maria, mas ainda assim, eu me perdi naquelas páginas.

Nascido em Porto Alegre, o chimarrão me era familiar e eu passei a acompanhar a leitura com uma cuia de mate fervente ao meu lado, que sorvia junto com o argentino Oliveira. Eu, em minha adolescência terminal, me identificava com os becos sem saída para onde o existencialismo de Oliveira o arrastava. Os sapatos molhados, o opressivo ambiente europeu, a chuva e a progressiva alienação.

O livro não me fez mais feliz. A imagem que tinha na época era a de uma rachadura que havia atravessado meu cérebro de fora a fora. Após a leitura, algo havia se deslocado, uma perda de foco da realidade. Uma dificuldade de entender e justificar as coisas. Um ceticismo e uma amargura acentuados, que me acompanham até hoje. Não, culpo o livro pela meu cansaço ou depressão, digamos que ele tenha agravado esses traços. As leituras dessa época eram similares. Kafka, Sartre, Poe, Dostoievski...

Passados mais de vinte anos, tentei retomar a leitura de Rayuela. Não deu. Não sou mais aquele leitor e não tenho mais vontade de percorrer novamente as crises existenciais do egoísta Oliveira. Hoje, minha vida tem sentido. Pessoas dependem de mim, sou importante para elas e não há lugar para o tipo de questionamento existencial de vinte anos atrás.

A leitura ficou gravada em minha alma, com certeza. Hoje me dou conta que foi digerida e processada, cumpriu seu papel. Talvez um dia, quem sabe...

Tenho desafios de leitura importantes na minha mesa de cabeceira, Ulisses, por exemplo. Não sei se a vida dará espaço para um novo mergulho como aquele. A mente e o corpo cansados, o pouco tempo que sobra dedicado aos filhos ou ao sono. A literatura restrita a anotações jogadas num blog e alguma nostalgia.

quarta-feira, dezembro 21, 2005

Cortázar e as coisas

Meu primeiro encontro com Cortázar foi num livro de escola, da quinta série, chamado Criatividade. Lá estava uma das pequenas histórias dos cronópios. Falava de um cronópio que, ao se olhar no espelho, viu outra coisa, pois a porta do armário, onde ficava o espelho, estava entreaberta. Em pânico, o Cronópio achou que tudo estava fora de lugar. Não lembro os detalhes, também não achei em casa o meu exemplar de Histórias de Cronópios e de Famas, mas, a aflição do cronópio era se, ao meter as mãos no bolso para pegar as chaves, encontrasse um açucareiro e dentro do açucareiro, botões em lugar do açúcar e assim por diante. Uma desorganização total das coisas no mundo.

Na leitura de Rayuela, as coisas também ganham um realce. No primeiro capítulo ("¿Encontraria a la Maga?”), há um longo trecho sobre uma cerimônia fúnebre para um guarda-chuva, arremessado do alto de uma ponte após ter se desfeito sob um temporal. O capítulo 41, aquele pelo qual Cortázar começou a escrever o livro, Oliveira está mergulhado na edificante tarefa de endireitar pregos tortos à marteladas, com grande prejuízo para seus dedos. No incomensurável capítulo 28, um pesadelo, as cuidadosas instruções para ligar o tocadiscos, “Encienda el tocadiscos, ese botón balnco al borde de la chimenea”. O que faz uma frase tão prosaica assim em um romance dessa dimensão?

Lembro também que ele tem uma série de narrativas que são instruções, para subir uma escada, para atravessar uma piscina...

Em todo Rayuela, as coisas, os objetos, aparecem como molduras, como formas de dar contexto aos personagens, às palavras. Não sei muito bem que significado dar a isso, mas a frase dele, “Sob a dor física, como funda picada metafísica, abunda a literatura” (que também me escapa onde encontrei, vou pesquisar) está sempre voltando para a minha cabeça. O que é o homem sem as coisas? Elas são como lastros da realidade. Se os objetos tem suas funções deslocadas, suas finalidades perdidas, nós perdemos o vínculo com a realidade e enlouquecemos. Lastros, como os de um balão. Afinal de contas, para que servem pregos tortos?

terça-feira, dezembro 13, 2005

Pedro Páramo

Talvez um dia eu comente esse livrinho (pequeno grande), que li há muitos anos atrás e, como os bons livros, marcou minha memória. Mas, enquanto não escrevo de próprio punho, fica o link e um bom comentário do No Mínimo, assinado por Antonio Fernando Borges. A frase que ficou, e que exprime uma das razões de ser deste blog:

“(...)Em tal reino da quantidade e do absurdo – onde milhões de dólares escoam por valeriodutos como se fossem “trocados”, e as dezenas de mortes violentas pelo mundo a fora se reduzem a episódios rotineiros do jornalismo diário –, talvez só mesmo uma atividade em extinção como a literatura ainda possa produzir algum tipo de impacto, sobretudo quando opera às avessas, pela via da exigüidade e do silêncio.(...)”

Por isso Nárnia, por isso Conrad, por isso Cronópios. Por isso. Evasão deliberada.

terça-feira, dezembro 06, 2005

Jogo da amarelinha 2 - Inveja crítica

A edição de Rayuela que tenho é das Ediciones Cátedra, com introdução e comentários de Andrés Amorós. Uma edição acadêmica, explicativa. Em um determinado ponto da introdução, ele escreve:

 

"(...) Creo que entiendo Rayuela: lo que ha hecho su autor, lo que ha querido hacer, la corriente de humor y de inteligencia que corre por debajo de estas páginas. Cuando he conocido a Julio Cortázar (!) – hemos charlado, nos hemos escrito – lo he confirmado."

 

Linhas antes, Andrés Amorós declara sua empatia pelo livro, como existem livros com o qual ele se identifica e como há aqueles no qual não consegue penetrar, "por mucho que aplique sobre ellos las técnicas de análisis literario que me han enseñado...".

Fiquei pensando. Que grande privilégio é ter conhecido Cortázar e conversado com ele sobre seus livros. Que maravilha para um crítico literário poder trocar impressões com o autor de suas obras preferidas.

Por outro lado, também me lembrei das lições aprendidas nas aulas de estudos de textos da faculdade de letras, de minha boa professora Célia Pedrosa e do completo Silviano Santiago. Muitas vezes, alguém falava, "mas o que o autor quis dizer aqui foi..." Do ponto de vista do leitor ativo - e o crítico literário não é mais do que isso, um leitor que constrói leituras - não importa tanto o que o autor quis dizer, mas sim, o que você, leitor, encontrou. Isso é básico. Não desmerece a troca de informações com o autor. Imagine, poder falar ao Cortázar o que você sentiu e viveu ao ler Rayuela?! Ouvir o que ele acha disso?! Mas, o nível de leitura mais importante é aquele incompartilhável. Uma leitura profunda, com efeitos sobre a pessoa do leitor, algo que poucos livros alcançam e quando o fazem, se tornam clássicos. Até porque, um dos temas que percebo centrais em Rayuela é a impossibilidade da comunicação, do pleno compartilhamento dos sentimentos e emoções, mesmo com as pessoas mais próximas de você. No caso de Horário Oliveira, essa impossibilidade chega a extremos. No caso dele, o processo de alienação da realidade pelo qual ele passa é causado por uma excessiva atividade intelectual, ou seja, excesso de "inteligência" e por uma incapacidade emocional de viver seus vínculos afetivos, ou seja, medo de amar, pura e simplesmente. Essa é a impressão de leitura que guardo comigo, de um livro que li há uns 20 anos atrás e que agora volta a me chamar. Será que se eu perguntasse a Cortázar se "era isso que ele queria dizer", ele me confirmará? É será que isso faz alguma diferença? Com certeza não. Em certa medida, o autor de um livro é ele mesmo apenas mais um leitor. Um leitor com um pouco mais de propriedade sobre o texto, mas um leitor.

segunda-feira, dezembro 05, 2005

O jogo da amarelinha

Sinto que devo falar desse livro. A mais radical experiência de leitura pela qual já passei. Devo falar de como cheguei ao Cortázar, ao ler uma das pequenas crônicas dos cronópios em um livro na quinta-série. Por enquanto, jogo a pedra na casa mais alta, para me lembrar como fui saltando, em um pé só, de casa em casa até chegar ao:

- Capítulo 28, de Rayuela.

terça-feira, novembro 29, 2005

Uma nota sobre livros de auto-ajuda

A literatura de auto-ajuda é um dos principais filões editoriais atuais. A quantidade de títulos, das mais diversas áreas, é impressionante. Tal força não pode ser desdenhada. Como classificar de ruim uma variedade tão grande de títulos? Alguma coisa deve se salvar.

Já li dois livros da editora Sextante, especializada na área, cuja exceção é o Código Da Vinci. Na verdade, li um livro e meio, o segundo está em andamento.

O primeiro foi A última grande lição, de Mitch Albom, tradução de José J. Veiga (!)*. O segundo, cuja leitura avança com facilidade, é Velejando com a vida, de Richard Bode, tradução de Maria Luiza Newlands. Gostei dos dois. Não reconheço grandes méritos literários no primeiro, mas gostei assim mesmo. Foi uma leitura anotada, de lápis na mão. Agradável, mas sem grandes lições além da velha e boa sabedoria baseada no bom senso e no amor. O livro tem valor e a história de Mitch Albom com o seu professor moribundo vale à pena ser contada. Só isso já é suficiente e justifica a publicação. Apesar de todas as anotações, pouca coisa ficou registrada em minha mente, precisaria retornar ao livro para recuperar as lembranças e anotações. O que me deixa em dúvida quanto a diferença que uma leitura assim pode fazer na vida das pessoas.

O segundo, pelo menos para mim, tem mais a acrescentar, principalmente porque gosto de barcos e de velejar e o livro trata disso. A cada capítulo, Bode fala de uma situação que enfrentou quando velejava em um pequeno barco em sua juventude, nevoeiro, mudanças de vento, calmaria, peças que se quebram, etc, e trás a situação para um momento de sua vida adulta, refletindo o que o barco, o vento e o mar ensinaram para ele. É bonito, é agradável, mas não é profundo, apenas, como o outro, sensato. Não acho que isso tire o valor de nenhum deles. Com certeza, pensarei nesse livro quando estiver velejando novamente, há uma identificação pessoal, no caso. No entanto, essa identificação não será comum a todos os leitores e não sei que efeito possa ter em outras pessoas. As lições estão lá. Assim como estão em Fernão Capelo Gaivota, ou em O pequeno príncipe.

Quando eu digo que não são profundos, penso em Dostoiévsky, por exemplo, o grande narrador das almas torturadas. O homem não é sensato, a humanidade não é sensata. A literatura não pode tratar dos grandes temas sob o ponto de vista do que é sensato e fazendo julgamentos dos que não se enquadram. Talvez aí esteja o "demérito" da literatura de auto-ajuda. Mas, em nenhum desses dois casos, pelo menos, percebi a pretensão de fazer alta literatura. São pessoas que passaram por experiências marcantes e que se dispuseram a compartilhá-las com outras pessoas. São relatos pessoais, alguma coisa fica, nem que seja o prazer de ler uma prosa fluida, que mal não faz e traz conforto.

 

*O asterisco fica por conta de a editora, em seu site, na apresentação do livro, simplesmente omitir o nome do tradutor. O que já é grave por si só e ainda pior por se tratar de um escritor do calibre de José J. Veiga. Mais respeito pelo profissional, pessoal, por favor! 

segunda-feira, novembro 28, 2005

Admiração leitora

Da Pequena Leitora, 9 anos, ao ver o título Gênio, os 100 autores mais criativos da história da literatura:

- Tem a Ruth Rocha?

Merecia ser incluída, só por causa disso.

sexta-feira, novembro 25, 2005

Gênio, Harold Bloom (i)

Gênio, Bloom, Harold. Tradução de José Roberto O'Shea, Ed. Objetiva.

Na esquina da Rua Buarque de Macedo com Rua do Catete existe um sebo de aspecto muito importante. Loja bonita, ampla e atraente. Fica no meu caminho de casa, quando estou voltando com a Pequena Leitora do ballet, ou do judô, com o Pequeno Leitor. Sempre olho a vitrine. Hoje, estava lá esse belo tijolo, que eu já observava a tempos em outras prateleiras. Tinha esperança de ganhá-lo de presente de meu amigo que trabalhava na editora Objetiva, mas, ele saiu de lá e essa fonte secou. Foi bom enquanto durou :-) Tomara que ele tenha o sucesso que merece em seu novo projeto.

Bem, vi o livro de Bloom na vitrine e resolvi perguntar o preço: R$ 20,00! Eles tinham lá diversos volumes, lacrados dentro de plásticos. Novos e virgens. O preço normal desse livro seria de uns R$ 80,00. Comprei na hora e não perguntei como eles conseguiam tal preço. São 828 preciosas páginas em um projeto gráfico de qualidade. Um volume sólido, para me acompanhar por alguns anos de leituras ocasionais.

Como não podia deixar de ser, conheci Bloom por sua obra para "crianças", Contos e poemas para crianças extremamente inteligentes de todas as idades. Adoro antologias e as de Bloom são modelares. Antologias são declarações de amor à literatura e, para o leitor, portões para diversos senderos que se bifurcan.

Não sei como será essa leitura. Não há de ser fácil, não há de ser breve. Ele fala de Shakespeare, Cervantes, Montaigne, Milton, Sócrates, Platão, Thomas Mann, Freud, Nietzche, Kafka, Proust... São 100 gênios e ele se propõe a identificar a raiz da genialidade. Já gostei do prefácio. Um pequeno trecho:

"Ninguém havia de implicar com a idéia de se estudar o contexto de uma obra. Mas reduzir literatura, espiritualidade ou idéias de um historicismo tendencioso é algo que não me interessa. As mesmas pressões sociais, econômicas e culturais produzem, simultaneamente, obras imortais e obras datadas. Thomas Middleton, Philip Massinger e George Chapman vivenciava a mesma energia cultural que, supostamente, modou Hamlet e Rei Lear. Mas as 25 melhores peças de Shakespeare (de um total de 39) não são obras datadas. Se não conseguimos outro meio de explicar Shakespeare (ou Dante, Cervantes, Goethe, Walt Whitman), por que não retomar o estudo da antiga idéia de gênio? Habilidade não é algo inato; genialidade o será, necessariamente."

Antes de mergulhar no mundo de Bloom, a impressão que tenho dele é a de alguém que milita pela preservação de uma forma de arte que vai se perdendo: a boa e velha e formal literatura. Esse livro será um desafio para mim. Assim como Ulisses, em sua nova tradução, também da Objetiva, que repousa em minha mesa de cabeceira e é visitado de vez em quando. Não são livros para serem lidos em nossos tempos. A literatura requer um ritmo do qual estamos cada vez mais distantes, em que a profundidade se perde e a informação interrompe a formação. Enfim...

terça-feira, novembro 08, 2005

Crônicas de Nárnia (ii) - Evasão/Invasão

Não foi por acaso que falei em evasão ao escrever sobre Nárnia.

As passagens entre mundos são uma constante em todos os livros que formam a série. Portões, passagens, acessos estão presentes em todos. A começar pelo O leão, a feiticeira e o guarda-roupa. Desde o ponto de partida.

O início da história são os quatro irmãos tendo que sair de Londres, fugindo da guerra, para se proteger em uma casa de campo. Ao se esconderem de novo, ocultando-se dos visitantes, eles entram no guarda-roupa e descobrem a passagem para Nárnia. Ou seja, saem da Inglaterra bombardeada para um mundo dominado pela Feiticeira Branca. Mas, a chegada deles desencadeia os acontecimentos que resultam na libertação de Nárnia e os trasnforma em reis e rainhas.

Quem não sonha em poder sair da realidade por uma passagem tão inesperada quanto um guarda-roupa sem fundo e sair em um reino que se liberta com sua chegada?

Isso me fez lembrar de um outro livro em que a passagem entre mundos é importante, Os meninos aquáticos, de Charles Kingsley, que também li pela primeira vez mais ou menos aos doze anos, uma leitura próxima de Nárnia.

Na época, tive um sonho. Sonhei que, sob o tapetinho que ficava ao lado da cama de meus pais, havia uma passagem para o mundo aquático do livro, em que meninos desenvolviam guelras e se trasnformavam em seres marinhos. O sonho foi tão real, que, durante o dia, bem acordado, sem ninguém mais em casa, cheguei a ir até o quarto dos meus pais e buscar esperançosamente uma passagem que só existia em meus sonhos. Lembro que eu sabia que nada iria encontrar, mas ainda assim, quem sabe?