Domingo, Fevereiro 22, 2009

José Saramago responde a Juan Arias

José Saramago responde a Juan Arias:

"— Nunca lhe aconteceu de parar e pensar que afirmou algo que podia ser o contrário?
—Digo-o de outra forma: há que se parar e perguntar-se o que se está a dizer. Se o fizermos, veremos que não temos outro remédio se não analisar o que se diz, e então percebemos que às vezes dizemos coisas que não têm o menor sentido.

Ou que às vezes o dizemos porque outros o disseram, sem refletir sobre isso.
—É, e repetimos coisas que de uma forma passiva se instilaram dentro de nós e nos impregnaram. Estou a dizer coisas que não saõ minhas. Certo, mas, na verdade, que coisas são minhas? Por isso digo que somos feitos de papel. O que é verdadeiramente nosso? Muito pouco, quase nada. Talvez todos sejamos os outros.

É o que dizia Leonardo Sciascia, nosso querido amigo e escritor siciliano, já falecido: no fundo nunca se escreve nada de novo, mas se reescreve.
— O que não sabemos é desde quando. Realmente, das frases dos literatos se aprende muito. Diante dessa frase de Sciascia, um escritor que sempre admirei muitíssimo, surge-nos a questão: e desde quando nos reescrevemos? Porque deve ter havido um momento em que tudo era novo, e depois disso nada mais é novo, estamos a repetir tudo. Nunca sabemos quando o novo principia."

in: José Saramago: o amor possível. Juan Arias. Ed. Manati.


E aí, me pergunto. Quando e por que escrever, em lugar de ler desenfreadamente? Ou mesmo falar, em lugar de ouvir atentamente? Quem sabe se nos calarmos não consigamos aprender alguma coisa de fato e paremos de nos repetir?

Quarta-feira, Julho 02, 2008

O inusitado

Talvez uma das características que mais me causem deleite na leitura de Cesar Aira é a sua capacidade de surpreender com o inusitado. Estamos sempre beirando o limite do verossímil, e, ocasionalmente, ele trata de romper esse limite sem fazer cerimônia; outras, apenas sugere e esbarra.
"Lu Hsin, sentado a la cabecera de la mesa, ante el silencio absorto de los invitados, se llevó a los labios una tacita de té... azul. Tomó un sorbo de té azul, respiró, y tomó otro. Terminó la tacita de un sorbo más, y volvió a llenarla com el té azul de una tetera blanca de porcelana traslucida, llena hasta la mitad. Cada uno de los invitados, cinco graves señores mayores, estava sentado frente a una taciyta idéntica a la del anfitrión, llenas asimismo de té azul. Habían obsrvado atentamente a Lu Hsin, aun sin parecer que lo hacían. Como si salieran de un sueño, o dentro de é adquirieran movimiento, alzaro todos a un tiempo la mano derecha, tomaron sus tacitas, y se las llevaron a los labios. Un sorbo, en el silencio perfecto: cinco sorbos. Lo degustaron, pensativos. Reinaba la impresión de que a ellos no se los podrían engañar, no digamos con té chasco, per ni siquiera con um buen colorante puesto en la infusión. Y a pesar de esa certeza, estaban en trance de comprobar una verdad inverosímil. Vaciaron las tacitas confirmando um juicio. Las devolvieron a la mesa con ruiditos secos, espaciados: la música secundaria del té.
Es té, indudablemente — dijo uno de ellos. Los otros asintieron.
Se sucedieron entonces las congratulaciones a Lu, teñidas de disculpa, como se dijeran que había sido un trámite burocrático más.
Los cinco ancianos, reconocidos expertos en arte, habían sido jurados en un concurso de pintura com té, de los que son tradicionales en nuestro país. Con las distintas variedades de té, aplicadas con pincel sobre los papeles clásicos de los acuarelistas, se obtienen exquisitas coloraciones pardo gresáceas, doradas, amarillas, ocres en todas sus tonalidades, anaranjadas, y hasta un tenue rojo. Pero, nunca azul; de ese color no había antecedentes em los cuantiosos anales de la pintura com té. Todos los colores de un bosque en otoño, pero no el cielo que se alza encima de las copas de los árboles. Todos los colores de un crepúsculo, pero no el que está antes de las transformaciones. Sin embargo, en este concurso se haía presentado una obra íntegramente pintada en azul, en lo más  diversos matices del azul, desde el profundo y opaco en el que viven los pulpos, hasta el aéreo y lavado com blanco, en el que flotan nas nubecillas del mediodía. Las obras se juzgabán únicamente por sus valores pictóricos; hacerlo de otro modo habría segnificado rebararse a un nivel artesanal, o de mera curiosidad o hobby. El cuadro azul había superado a los demás presentados, por su inspiración y su destreza técnica; era el mejor, pero ¿era té? Su autor, que no era otro que Lu Hsin, había debido invitar a los jurados a probarlo en su casa. Ahora, el final requisito había sido satisfecho. Bebieron su té, y todos en paz."
Una novela china, César Aira. Ed. Contemporánea.
Uma das diversões de se estudar a literatura é ir descobrindo suas camadas. Após a leitura do Pequeno manual de procedimentos, a coletânea de ensaios recolhidos e organizados por Eduard Marquardt e Marco Maschio Chaga, pela editora Arte & Letra, deslizar por um outro livro de Aira é descobrir seus segredos e manobras. É encontrar, na forma de ficção, os preceitos descritos e admirados por ele, seu famoso procedimento, sua escrita disciplinada, seu "fugir para frente". Mas, nenhuma preceito, procedimento, concepção teórica, ou o que seja, adiantaria se não fossem adotados por uma imaginação extrema e desimpedida. Uma capacidade de criar e inovar extrema, sem cair em experimentalismos herméticos e desagradáveis. Ele escreve com uma liberdade e descompromisso invejáveis.
Rio, 020708

Terça-feira, Julho 01, 2008

Estranhos mundos superpostos

Fala a narradora, a morte, logo nos primeiros parágrafos:
"[...] Basta dizer que, em algum ponto do tempo, eu me erguerei sobre você com toda a cordialidade possível. Sua alma estará em meus braços. Haverá uma cor pousada em meu ombro. E levarei você embora gentilmente."
De A menina que roubava livros, Marcus Zusak. Tradução de Vera Ribeiro. Ed. Intrínseca. ©2006
Fala o narrador, logo nos primeiros parágrafos:
"¿Qué ocurre cuando una vida se desvanece? Quizás otro color desciende sobre el mundo, y se agrega a la gran suma imperfecta y fluctuante."

De Una novela china, César Aira. Ed. Contemporánea. ©1987
Literatura é influência. E, como eu disse antes, existem outras realidades, a ficção se comunica ao longo de um mundo plano e horizontal, percorrido por leitores.  Caso contrário, como dois escritores tão distantes e díspares fariam a mesma associação entre morte e cor? Combinadas as palavras, temos corte.

Quinta-feira, Junho 26, 2008

Dos começos

Ia dizer inesquecíveis, mas podem me acusar de plágio ou falta de originalidade, a causa do Sérgio Rodrigues e seu Todoprosa. Mas, é verdade, sempre apreciei bons começos, praticamente definem o andamento de todo o resto da leitura.

Dois deles ficaram gravados na memória, o que é difícil, raríssimo, uma vez que minha memória. Bem.

“Encontraria la Maga?”, de O jogo da amarelinha, e “In a whole in the ground, there lived a hobbit”, de O hobbit.

Quando fui a Paris com a esposa, pedi que ela esperasse de um lado da Pont Neuf, eu iria até o outro, depois voltaria e nos encontraríamos no meio. Ela nada entendeu, a minha Maga, que quase nada tem de cronópio e muito de fama. Ah, os papéis que atribuímos a nossas mulheres sem que elas nada saibam...

Pode parecer esdrúxulo misturar Cortazar e Tolkien. Para mim, não. Ambos são, ao fim e ao cabo, literatura de viagem. Adoro Tolkien, adoro suas intermináveis descrições das paisagens da Terra Média, um mundo com uma proporção de realidade que chega ser difícil acreditar que não é de carne e osso, pau e pedra e pó, e nunca mais. E esse começo de O hobbit, bem era um ser minúsculo que um dia botou os pés para fora de seu buraquinho no chão e se perdeu, depois se achou, mas aí já estava irremediavelmente perdido. Horácio Oliveira também era um ser minúsculo, ainda assim nunca coube em seu buraquinho original e teve que sair. Não voltou mais. Quando voltou, não se achou. Irremediavelmente estrangeiro de si. Lamentavelmente, perdeu-se de sua Maga também. Talvez, Rayuella pudesse ter começado assim: "Perderia la Maga?". Sim, perderia. E isso me causa uma profunda tristeza, pois sei bem a importância de encontrarmos a nossa Maga e a mantermos do nosso lado. Por menos Maga que seja. "Matem o cachorro!", gritava Oliveira no final. É, matem o cachorro.


Sexta-feira, Fevereiro 15, 2008

Tradição oral

A cultura oral parece estar ganhando força lá em casa. O pequeno leitor e eu estamos empolgados com a leitura de A bússola de ouro, enquanto a mãe leitora e a pequena leitora estão imersas em A viagem de Théo, sendo que boa parte da leitura está sendo feita pela pequena.
Após botar as crianças na cama, o pequeno leitor a contragosto ao final de cada capítulo, eu e a esposa leitora nos metemos com o primeiro Espinosa, do Luis Alfredo Garcia-Roza.

Fora isso, terminei de ler Fantasma, do José Castello, que aliás anda sumido. Gostei muito, muito mesmo. Um humor ótimo, ainda que ácido, com toques de amargo, que acho que ele devia transpor para seus artigos por aí. Literatura também é diversão, ainda que ele toque em algumas coisas bem delicadas. Talvez ainda escreva mais longamente sobre esse livro.

E agora, comecei a ler o Dois irmãos, do Milton Hatoum. Estou gostando, principalmente por conhecer um aspecto de Manaus diferente, mais urbano e menos floresta tropical. E a história parece ter a força passional libanesa visível no Lavoura arcaica, do Raduan Nassar, por exemplo. Amores e ódios extremos e absolutos. Parece ser mais uma versão do velho embate de Caim e Abel, Esaú e Jacó...

Segunda-feira, Janeiro 28, 2008

Parménides, César Aira

A livraria Cultura tem alguns livros em espanhol do César Aira. Comprei (e li!) Parménides, livro de 2006. Diferente de Noites de flores e de Um acontecimento na vida do pintor viajante, ainda assim, genial. Vou colocar uns trechos por aqui:
1
Ésta es la historia triste del escritor Perinola, que vivió acomienzos del siglo quinto antes de Cristo en una colonia griega dela costa italiana del sur. Cuando empezó la historia, aunque ya estaba empezando a dejar de ser joven, era un escirtor joven, una "promesa" como suele decirse; no había gran cosa en la que basar la promesa, pero con poco alcanza, y hasta con nada, si lo que sepromete es algo tan iverificabel com la poesía. En realidade no había escrito casi nada, y lo habían leído menos, pero eso no significaba que la consideración (un tanto ambigua, además) en que lo tenía un puñado de entendidos ou supuestos entendido en poesía careciera de todo fundamento. A veces se dan casos de adivinación social, que suelen entrar en la categoría de profecias autocumplidas. Eso puede deberse a que son tan escasos los escritores bueno que cuando aparece uno, entre mil malos, casi no necesita escribir para que alguien se dé cuenta. Y además está el hecho de que las falsas adivinaciones o las promesas que no se cumplen no se toman en cuenta.
(...)

Bem, a história que segue descreve os anos de convívio de Perinola e do filósofo pré-socrático Parménides, que, por não ter tempo ou preparo para escrever, contrata os serviços do jovem promissor para escrever seu livro, por ele. Perinola seria o primeiro ghost writer da história. Parménides entrou para história como o filósofo que incluiu a discussão do ser e o não ser na filosofia ocidental. Questão insolúvel sobre a qual os filósofos se debatem eternamente. Pois, César Aira usa a literatura para dar uma rasteira na filosofia e contar sua própria versão sobre o surgimento desse dilema hamletiano.

Quinta-feira, Janeiro 10, 2008

Coisas que eu gostaria de ter escrito (ainda o sono e o tempo)

"É muito tarde, minha cara, e ainda assim vou dormir, sem merecer. Bem, dormir mesmo não vou, apenas sonhar. Como ontem, por exemplo, quando no sonho eu andava até uma ponte ou um cais em cuja amurada por acaso havia dois telefones; eu levava os fones ao ouvido e ficava pedindo notícias dos "confins do mar", mas do telefone só vinha o bramir do oceano e um cântico sem palavras, triste, impressionante. Mesmo depois de perceber que nenhuma voz humana conseguiria sobrepor-se a tais ruídos, não desisti e ali fiquei."
Sonhos, Kafka, trad. Ricardo F. Henrique. Iluminuras


Hoje, estou especialmente sonolento, ainda que muito desperto.

O tempo parado de João Gilberto Noll

Do outro lado da rua, há um sebo. Beta de Aquários. Em sua vitrine, havia outro dia um lote de livros de João Gilberto Noll. Seis livros exatamente, todos da Editora Francis. Os preços variando de R$ 10 a R$ 15. Gastei R$ 65. Eram novos. Alguém teve prejuízo, outros lucraram.
Entrar numa livraria e roubar o tempo, comprar livros, é roubar dinheiro da família. Ler é roubar ainda mais tempo, ao mesmo tempo que se desfruta do objeto do crime. O tempo da leitura passou a ser criminoso e marginal.

Comecei a ler por Mínimos, múltiplos, comuns. Um livro estranho. Diz a apresentação, de Wagner Carelli:
João Gilberto Noll passou três anos e quatro meses na aplicada disciplina de escrever toda semana duas narrativas completas, e de porte incomum: cada relato estava confinado a um máximo de 130 palavras.


A primeira delas, que abre a seção chamada Gênese e que começa pelo Nada:
Nadas

Tecido Penumbroso
Como posso sofrer porque as coisas pararam? Elas andavam tão estouvadas! Por que não deixá-las dormir agora um pouco? Tudo se aquietou, é noite, o mundo vive pra dentro, cegando-se ao sol do sonho. Preciso um pouco desse conteúdo inóspito, ermo com um quase-nada. Não, não é morte, é uma espécie de lacuna essencial, sem a aparência eterna do mármore ou, por outro lado, sem as inscrições carcomidas. Pode-se respirar também na contravida. Depois então, a gente volta para o velho ritmo; aí já não nos reconheceremos ao espelho explícito, tamanha a qualidade desse tecido penumbroso que provamos.
Eu queria achar essa porta para um não-mundo, um não-tempo. Não se trata de uma busca do Nirvana, de fusão com o cosmo, de iluminação. Sequer uma passagem para um mundo mágico no fundo de um armário. Nada disso, ainda que tudo isso. Apenas poder ausentar-se. O mais próximo que já cheguei foi através da leitura e da escrita. Só que, ao retornar, as horas tinham se passado, o relógio não parou. E me vi de volta às horas, as horas, sem realmente ter saído delas. Acho que só mesmo a morte, e nem a morte é garantia de escapar ao tempo.
É melhor ler um livro, as próximas 130 palavras de Noll, talvez. De madrugada, quem sabe, quando as coisas adormecerem. Mas aí, estarei roubando o tempo do sono, um roubo impossível, pois a vítima sempre se derruba o criminoso na ressaca do dia seguinte.

Quarta-feira, Novembro 28, 2007

O tempo da leitura

O tempo para leitura é um dos mais subjetivos que há. O da escrita também, mas isso é outra conversa.
Muita gente diz que há muito tempo não lê um livro por falta de tempo. Mas, não é por isso não, é por falta de coisas interessantes para ler. O Harry Potter, por exemplo. Todo mundo leu. Cada novo volume era um tijolo maior e as pessoas os lêem em dias, ou horas, eu inclusive.
Li o último volume em praticamente um dia, certamente em menos de 24 horas. Era uma necessidade, era preciso acabar para me livrar daquilo, da necessidade de ler o que eu já sabia, que Harry não ia morrer e que venceria o Voldemort. Quem é que não sabe o final da maioria das histórias que lemos (ou assistimos no cinema)? Não se trata de chegar ao final, mas de tudo o que acontece até lá. E, se a história for envolvente, o tempo da leitura invade o tempo de tudo o mais. "Mas", alguém pode dizer, "isso é leitura de consumo". Claro que é. E daí? São letras, palavras, frases, parágrafos e páginas, a base de toda a leitura. O tempo, na verdade, é aquele que precisamos para compreender o que lemos. Se a compreensão é direta e sem floreios, a leitura corre. Se precisamos elaborar e refletir, invariavelmente, o tempo diminui.

Segunda-feira, Novembro 19, 2007

Tradução de livro sobre tradução (Eco)

Fiquei muito honrado por receber um comentário de JK em meu blog, não conhecia meus poderes mediúnicos de atrair vozes do além. :)
Bom, JK, brincadeiras a parte, o que você escreveu foi:
" É curiosa essa coisa de tradução de um livro sobre tradução. Gostaria de ter mais opiniões a respeito..."
Acho que a tradução de um livro sobre tradução não é diferente da tradução sobre qualquer outro assunto, a não ser talvez por ser algo que desperte um interesse diferente por parte do tradutor. Eu vou falar mais sobre isso quando terminar de ler o livro do Eco, o que deve acontecer em breve. Existem alguns pontos de interesse sim e vou comentá-los. Essa conversa começou lá na comunidade dos tradutores/intérpretes do Orkut, não teve grandes desdobramentos, mas, obviamente é um tema de especial interesse para quem traduz.
Por ora, estou gostando bastante do texto traduzido. Não conheço a tradutora, Eliana Aguiar, mas conheço a Raffaella, que fez a revisão técnica e sei que ela tem background teórico, acadêmico e prático, para garantir um trabalho bem feito

Afora isso, JK, espero que você esteja com boa saúde e mais vivo, ou viva!, que um peixe na água fria!

Domingo, Novembro 18, 2007

Fantasma, José Castello

Apenas para registro memorial. Estou lendo esse livro do Castello a passo de lesma, em meio a tudo o mais (resenhas, traduções, cão operado na casa dos pais, filhos, dívidas...)
Estou me divertindo muito, é um humor como o rombóite, que não existe mas dói. Creio ser o único romance publicado dele. Em um passeio fantasmagórico por Curitiba, em que a própria cidade tem mais atmosferas do contornos. Espero, ao final, poder escrever mais longamente sobre o livro. Até por que, convivo em meu dia-a-dia com curitibanos típicos
deslocados no Rio de Janeiro. Pessoas por quem tenho profundo afeto, respeito e admiração e a sorte de serem meus sogros.

Sábado, Novembro 10, 2007

Originalidade

Não existem duas pessoas iguais no mundo. A diversidade é o que nos dá a certeza de que a literatura, e a arte de modo geral, podem sempre encontrar caminhos de renovação. Foi assim e não vejo qualquer motivo para que isso mude e que seja possível decretar a morte de qualquer
forma artística. A humanidade se renova, as sociedades se modificam, as cabeças acompanham, quer queiram ou não. E o que se escreve, fatalmente reflete isso.

Assim também como o que se lê. Uma mesma obra tem a força de se renovar com os tempos, com novas leituras de novos leitores, ou com novas leituras de um mesmo leitor, ou releitor.

Volta e meia me caem nas mãos livros de autores "novos". Seja para fazer uma resenha, seja para um parecer editorial. Todos são diferentes e originais, o que não quer dizer que sejam necessariamente bons por serem originais. Quer dizer apenas que a renovação é sempre possível. Por isso estamos sempre em busca de novas leituras, de autores novos ou antigos.
Cada leitura é sempre uma primeira vez.

Quarta-feira, Outubro 24, 2007

Quase a mesma coisa, Umberto Eco

Estou começando a ler o Quase a mesma coisa, do Umberto Eco, tradução de Eliana Aguiar e revisão técnica de Raffaella Quental, pela editora Record.

Um livro sobre tradução do Umberto Eco é ótimo para a nossa quase invisível profissão. É importante chamar a atenção para o nosso trabalho. Em geral, quando falam de tradutores e tradução é para botar defeito, raramente se escreve na imprensa algo sério sobre o ofício.

Fora isso, o Eco fala de coisas que, quem traduz, já sabe há muito tempo, mas é bom ver em livro, principalmente livro de Umberto Eco. Por exemplo:

"(...) O tradutor, ao contrário, sempre traduz textos, ou seja, enunciados que aparecem em algum contexto lingüístico ou são proferidos em alguma situação específica." (pág. 49)
É importante que as pessoas percebam isso muito bem. Muita gente acha que traduzir resume-se a traduzir palavras, bastando para isso olhar no dicionário. Para os clientes que compram tradução, isso é especialmente importante. Quando dizemos a um cliente que cobramos por palavra, às vezes perguntam coisas do tipo "E as palavras repetidas? Tem diferença de preço para palavras grandes e pequenas?". Aí, é preciso explicar que a palavra (ou lauda, ou página, ou caractere) é apenas uma unidade de cobrança, que na verdade, o trabalho do tradutor é traduzir o texto como um todo.

O tipo de leitura que um tradutor faz do texto é algo para um outro post. Por enquanto, fico por aqui, só para não parecer que o blog estava abandonado de vez.

Terça-feira, Fevereiro 27, 2007

Cesar Aira

Eu não conhecia. Fui conhecer ao ler dois livros para resenhar para O Globo. O resultado está aqui:
http://oglobo.globo.com/blogs/prosa/post.asp?cod_post=48706
É o primeiro argentino que leio a fugir descaradamente da sombra onipresente de Borges ou do projeto de totalidade do absurdo de Cortázar. Diferente de tudo o que já li.

Nada contra Borges ou Cortázar, muitíssimo pelo contrário. Mas, como o próprio Aira disse em alguma entrevista que achei ao fazer as pesquisas para a resenha, Borges é uma presença tão forte na literatura argentina que é preciso um esforço para se livrar dele.
Acho que isso vale para todo mundo. Ler Borges é uma experiência total de literatura e é muito difícil "livrar-se" de sua influência. Uma influência tão forte, que essa nota era para ser sobre Cesar Aira e acabou sendo sobre Borges! Mas, Cesar Aira, como eu disse na resenha, dá uma gargalhada na cara da literatura. Uma ruptura necessária na mesmice. Recomendo para qualquer escritor iniciante. É a tal fuga dos clichês, a "quebra dos paradigmas" (argh!).

O sonho de Kafka

Na página 48, do livro Sonhos, de Franz Kafka, traduzido por Ricardo F. Henrique, ed. Iluminuras, está o sonho a partir do qual escrevi o conto Kopakabana. Eis aqui:

"Sonho há pouco: com meu pai andando de bonde em Berlim. A atmosfera metropolitana era dada por inúmeras cancelas destribuídas a intervalos regulares, pintadas em duas cores e com as extremidades rombudas e polidas. De resto, tudo era vazio, mas a quantidade dessas concelas era enorme. Chegamos a um portão, descemos do bonde sem perceber, atravessamos o portão. Atrás dele começava uma parede muito ingreme que meu pai foi escalando quase dançando, com tanta leveza que balançava as pernas no ar. Sem dúvida era uma certa desconsideração o fato de ele não me ajudar, pois eu me esforçava muito para subir, ia de quatro e escorregava várias vezes, como se a parede se tornasse ainda mais íngreme sob meu corpo. Também era muito desagradável o fato de a parede estar coberta de excremento humano que ia grudando em mim, aos flocos, sobretudo no peito. Abaixando o rosto eu percebia a sujeira e tentava limpar com a mão. Quando finalmente cheguei no alto, meu pai, vindo do interior do edifício, abraçou-me e cobriu-me de beijos. Ele vestia uma farda imperial da qual eu bem me lembrava, curta, fora de moda, estofada por dentro como um sofá. "Esse Dr. von Leyden! É um homem extraordinário!", exclamava sem cessar. Mas ele não tinha visitado o homem como médico, mas como alguém que vale a pena conhecer. Eu tinha um certo receito de que me obrigassem a também ir até ele, mas não foi o caso. À esquerda atrás de mim vi um homem sentado de costas num aposento que era todo de vidro. Ficou claro que era o secretário do professor e que meu pai na realidade só falara com ele, e não com o professor em pessoa, mas que mesmo assim tinha reconhecido os méritos do professor através do secretário, de modo que realmente podia julgar o professor como se tivesse falado pessoalmente com ele.

Diário, 6 de maio de 1912
"

Comprei o livrinho numa das mais autênticas livrarias do Rio de Janeiro, a Leonardo da Vinci, por preciosos R$ 33,00.
Agradeço de coração as palavras amigas dos colegas tradutores, da comunidade orkutiana Tradutores e Intérpretes.

Quinta-feira, Fevereiro 15, 2007

Kopakabana

Como disse aí em baixo, em janeiro, fiz a oficina do José Castello, na Estação das Letras. Foi muito bom, pena que foi curto.
Ele passou dois exercícios. Leu a narrativa de um sonho de Kafka para nós e pediu que escrevessemos algo a partir disso. O outro "desafio" era escrever sobre Copacabana sem escrever sobre Copacabana. Ou seja, fizemos uma lista de 50 palavras proibidas, incluindo praia, areia, calçadão, turista, mulher, sol, pivete, camelô, enfim, todas esses clichês infalíveis sobre o Rio e, mais especificamente, sobre Copa. A idéia era fugir dos lugares comuns e tentar falar do bairro de maneira inusitada. Parece que consegui.
Eu juntei as duas coisas e escrevi Kopakabana (http://tinyurl.com/yuxfdd), o "professor" gostou e recomendou a publicação no Rascunho. Está lá, para quem quiser ver.
Faz tempo que o Rio de Janeiro não é mais o Rio de Janeiro. Estamos afundando numa cidade cinzenta, como um cenário de Kafka e estamos nos transformando em insetos, sim. Esse conto mostra como eu, leitor, leio a nossa cidade, cada vez menos tropical. Naturalmente, essa é a leitura que eu faço do meu conto. Mas, no momento em que outra pessoa ler, o conto passa a ser dela e ela (você?) será o autor da sua leitura.
Vou procurar o sonho de Kafka que está por trás da minha história para colocar aqui.
Kafka foi uma leitura importante para mim, acho que ninguém passa incólume por ele. Li umas tantas coisas, faz muito tempo e tudo meio que se mistura. Acho que essa mistura está presente nisso que eu escrevi. Chamam a isso de influência, nesse caso, bem explícita e intencional. Curioso pensar nas influências que não conseguimos identificar. Será que todos os escritores de que gostamos influenciam a gente? Acho que sim, a idéia é essa. Literatura é influência.

Quarta-feira, Dezembro 20, 2006

Recomendação de leitura e Oficina

Ele fez de novo! Vale muito a pena ler o texto de José Castello no Rascunho deste mês.
Aliás, ele oferecerá uma de suas "Oficinas da Imaginação" na Estação das Letras, agora, no início de janeiro. Eu estarei lá.

Terça-feira, Novembro 28, 2006

Outras realidades

Estou às voltas com Calvino, o ítalo.
Andei longe do blog, por outras atividades mais prementes. Outras realidades que exigiam minha presença, não desenvolvi, ainda, o dom da ubiqüidade.

No entanto, cheguei a uma conclusão importante, por mera observação empírica. Outras realidades têm direito à existência, e existem, de fato. Só que por serem outras, existem de maneira diferente da nossa. Uma delas é a realidade das criações artísticas. Um mundo onde as obras se sucedem, como as cidades, os mares e os acidentes geográficos em nosso planeta. Você pode andar por uma praia, de uma ilha, e encontrar Robinson tentanto arrastar uma enorme canoa para o mar. Avance mais um pouco e verá, ao longe, um cavaleiro bem magro, num cavalo derreado, seguidos por um escudeiro roliço. Cuidado com as grandes planícies, pois você pode ser atropelado por hordas de guerreiros de qualquer época, pois esse é um cenário recorrente de todos os períodos e universos. Imagine esse planeta, esse universo das obras literárias. Assim como o nosso, também infinito. Sabemos que jamais o percorreremos por inteiro.
O universo da literatura está em nossas mentes, coletivamente, comunica-se, interage. Numa concepção borgeana, existem lugares das obras escritas, das obras em andamento e do vir a ser. É uma realidade, diferente dessa física, mas que tem existência. Um mundo que se poderia chamar de platônico, por conceitual, mas não me agrada a idéia platônica de cópias imperfeitas. Criações imperfeitas, por incompletas, talvez. Assim como a nossa, essa outra realidade vive em mutação constante, mesmo quando se trata de obras supostamente acabadas. Um ponto final
pode facilmente se transformar em dois pontos, travessão, ou reticências. E o mundo se transforma novamente.

Sexta-feira, Agosto 25, 2006

A pequena leitora faz poesia sem perceber

A lua não está minguante,
Não está crescente,

Está sorridente! :-)

Carlos, Murilo e Pedro

Se fossem meninos, amigos, e se encontrassem num pasto de uma fazenda qualquer de Minas Gerais:
- Carlos estaria lendo Robinson Crusoé, sentado sob uma mangueira.
- Murilo estaria arremessando pedras para o céu, na esperança de que se incendiassem e virassem novas estrelas.
- Pedro estaria observando-os atentamente, fixando o momento em sua memória, mas sem saber disso, naturalmente.

Quarta-feira, Agosto 23, 2006

A suprema interrupção

Em O último leitor, Ricardo Piglia fala do horror de Kafka às interrupções de seu trabalho de escritor. Pedro Nava cometeu a suprema interrupção ao suicidar-se ao final do primeiro capítulo daquele que seria seu último volume de memórias, Cera das almas. A resenha do livro incompleto de Nava saiu no Rascunho de agosto, que também traz um especial sobre Guimarães Rosa e os 70 anos de Angústia.

O link para a resenha sobre o Nava é:
http://tinyurl.com/elwtj

Mas vale dar uma boa lida no resto do jornal.
 

Quinta-feira, Agosto 17, 2006

O leitor escreve

O pescador
Júlio não gosta de futebol. Seu pai gosta, muito. Seu pai gostaria que ele gostasse de futebol, gostaria muito. No aniversário de dez anos, o pai deu ao filho um par de chuteiras  e uma bola tamanho oficial. Ambas da marca Nike, na cor azul metálico. Júlio gosta do pai, gosta muito, de verdade. Assim, gostou muito do presente também, mesmo não gostando. O pai ficou feliz que o filho tenha gostado tanto assim dos presentes. (Mesmo sabendo que o menino não tinha gostado tanto assim).
Júlio mora na rua Buarque de Macedo, no bairro do Flamengo, no Rio de Janeiro. A rua começa na Praia do Flamengo e termina na Rua do Catete. Tem sempre muitos carros estacionados dos dois lados, passagem para um carro de cada vez. O prédio em que Júlio mora, não tem play. "Vai filho, chama seus amigos e vai jogar bola embaixo". Júlio achou muito estranho o pai dizer isso, pois se não pode sair na rua sozinho, pois se tem muito mendigo e gente ruim que faz mal para as crianças. Mas, Júlio gosta muito do pai e achou por bem obedecer. Ligou para o amigo da escola, que morava em outro prédio e perguntou se ele queria jogar bola na calçada, que ele tinha ganhado uma bola nova e o pai tinha dito para ir jogar embaixo e ele tinha ganhado também as chuteiras. "Que maneiro!", disse o amigo, que realmente gostava de futebol, mas sabia que Júlio não sabia jogar e que também não podiam descer para a rua para brincar. "Minha mãe disse que a rua não é lugar para brincar", disse o amigo. Então Júlio calçou as chuteiras, pegou a bola e desceu.
O porteiro elogiou as chuteiras e a bola brilhantes, e apertou o botão para destrancar o portão eletrônico. Júlio ficou em na calçada estreita, em frente à grade do prédio. A calçada era esburacada e com sujeira de cachorro. Fez a bola quicar no chão, chutou de leve, passando o por cima. Ficou chutando de um lado para outro da calçada, em frente ao prédio. Quando vinha alguém, segurava a bola com a mão. Um cachorro fez xixi na árvore em frente ao prédio, a bola escapou dos pés de Júlio e passou em cima do xixi. Ele pegou a bola e parou na frente do portão, o porteiro abriu e Júlio lavou a bola na torneira da garagem. Ficou chutando a bola dentro da garagem do prédio, mas o zelador disse que não podia jogar bola ali.
Ele foi para o elevador e voltou para casa. O pai disse, “?! Vai brincar, cara! Aproveita!”. Júlio não queria voltar para a rua sozinho, não queria jogar bola. Mas, pegou a bola de novo e desceu. Saiu pela calçada e foi andando em direção ao Aterro. Atravessou a rua passou pela passarela sob as pistas dos carros. Foi chutando a bola devagar, até uma quadra de basquete. Ficou olhando os caras jogando basquete. Não gostava de basquete, menos ainda do que de futebol, a bola era muito grande e pesada. Foi até aquele lago retangular, sempre seco, tinham falado que era um lago para miniatura de barcos a motor ou a vela. Mas o lago estava sempre seco, por causa dos mosquitos da dengue. Bem que se estivesse com água ele ia gostar de brincar com barquinhos de controle remoto, mas era caro, o pai nunca ia comprar para ele. Ele entrou no lago seco e começou a chutar a bola de um lado para outro. Tinham pintado um gol de cada lado do lago e Júlio marcou muitos gols, dos dois lados.
Enquanto chutava a bola nova, não reparou num grupo de meninos de rua que pularam a cerca do lago e ficaram olhando ele jogar. ", vamu jogá?" Júlio sacudiu os ombros, os meninos entraram no lago seco por causa da dengue e fizeram dois times. Os meninos estavam descalços, mas sabiam jogar futebol. Eles gostavam muito de futebol. Acharam a bola linda. Júlio não conseguia mais tocar na bola, ele não sabia jogar futebol, acabou ficando de fora. Sentou-se na beira do lago, ficou olhando o jogo e vendo os bondinhos de Pão de Açúcar se cruzando entre os dois morros, longe, na Urca. Uma vez ele foi pescar na Urca com o pai, ele gostou de pescar com o pai. Ele gostaria de ganhar uma vara de pescar, daquelas com molinete, e ir pescar com o pai. "Me empresta a chuteira?" Um menino maior do que ele estava na sua frente. Júlio ficou com medo. Tirou a chuteira e emprestou. As meias também. Obviamente, as chuteiras ficaram apertadas no moleque, mas ele as enfiou assim mesmo. Os meninos ficaram jogando futebol, a bola estava suja e arranhada, as chuteiras no do outro também. Mas estavam felizes, uma alegria fácil de um jogo que os tirava momentaneamente das ruas e os colocava dentro de um campo, com regras conhecidas e que aqueles meninos desregrados sabiam obedecer. Respeitavam as faltas, as laterais, os tiros de metas. Xingavam-se, batiam-se, mas jogavam bola e marcavam gols. Júlio queria ir embora, mas não tinha coragem de interromper o jogo para pegar a bola e as chuteiras de volta. Até que a bola veio em sua direção e ele a pegou. "Joga a bola , mano!" "Tenho que ir embora" "E daí, joga a bola !" "Meminha chuteira, tenho que ir embora" "Dá a bola , moleque! Quer morrer?!” De algum lugar, surgiu um revólver na mão de um menino. Júlio se assustou, pulou a cerca, caiu do outro lado e saiu correndo. Foi correndo até em casa. Entrou ofegante. “Que foi menino?! Cadê a bola?!"
"Pai, vamos pescar?”
Foram.

Rio , 15 de agosto de 2006

Sexta-feira, Julho 21, 2006

Os prêmios, Julio Cortázar

Essa resenha marca minha estréia no jornal literário Rascunho. Visite o jornal para ler o texto e deixe aqui seu comentário.
Abraços,
Daniel

Em busca da maternidade perdida

Memórias Líquidas, de Hilda Lucas. Editora de Cultura, 232 páginas. R$ 34,90
Resenha publicada no Globo, em 8/7/2006

 “... Não existe sequer uma palavra para nomear quem perde um filho. Viúvos são os que perdem os companheiros, órfãos os que perdem os pais... Mas que nome tem quem perde um filho?”

 Hilda Lucas escolheu um tema difícil para publicar o seu primeiro romance. Há quem diga que não existe dor maior do que a perda de um filho. Maior em todos os sentidos, em intensidade e em duração. Uma dor tão terrível que se torna inominável. E algo inominável é muito difícil de ser tratado pela literatura.
O livro conta a história dos membros de uma família e suas diferentes maneiras de lidar com a morte da filha mais velha, quando a menina tinha oito anos. Dez anos depois, mãe, irmã, pai, empregada e amiga da mãe têm suas reações e histórias narradas em capítulos intercalados, dedicados a cada um deles. A voz de claro timbre feminino da narrativa retrata os personagens de forma onisciente. A intenção é mostrar o ponto de vista de cada um sobre a criança morta e sobre os demais, sob a supervisão geral da narradora. Os olhares, no entanto, demoram-se mais sobre a mãe, centro de tensão da rede de relações.
No esquema de Hilda Lucas, filha, ex-marido e empregada procuram levar suas vidas adiante, apesar da estagnação no sofrimento da mãe. Em oposição, uma amiga, que revela-se inimiga, procura manter a mãe em um estado permanente de dor. O suspense da trama é se a mãe conseguirá ou não libertar-se da má influência e superar o trauma, redescobrindo a vida e a filha viva.
A filha mais nova, agora adolescente, é a única a quem a autora concede voz própria, em longos monólogos/diálogos com a irmã morta. Hilda procura mostrar como cada pessoa lida com a perda. No caso da irmã, segundo suas próprias palavras, "comecei a inventar você quando eu vi que tava te esquecendo...". A partir daí, Gabi, a caçula, tem longas conversas com Clara, a irmã mais velha imaginária, que vai crescendo com ela, vivendo juntas a passagem complicada pela adolescência. Além disso, os diálogos com a irmã ausente compensam a distância imposta pela mãe, que não se permite aproximar-se da filha viva. Para Gabi, a gangorra equilibra-se no convívio com o pai, que conseguiu superar a morte da primeira filha. Do mesmo lado do pai, está Amália, a empregada, espécie de escudeira, que vai amarrando as pontas soltas do lar desfeito para que a vida não se desmanche de vez. O conflito é estabelecido pela presença de Beth, que alimenta a tristeza de Ana, a mãe, para nutrir-se de sua dor, íncubo maligno que a narradora revela sem disfarces ao leitor.
O universo de emoções e tensões a que somos expostos no livro de Hilda Lucas, apesar do tema tortuoso, é muito organizado e planejado. A narrativa guarda algumas surpresas que a livram da previsibilidade, no entanto, os personagens e a própria teia de relacionamentos tem algo de esquemático. O conflitoAna x Beth”, o fio de suspense que mantém o leitor  preso à leitura, na verdade, é um conflito interno de Ana de superação da morte da filha e de auto-superação. Nesse aspecto, a personagem Beth poderia ser dispensada se o foco de tensão fosse desviado para o conflito interno de Ana e a resolução de seu relacionamento com a filha viva. O romance talvez ganhasse em profundidade se trabalhasse nesse nível interno ao invés de lidar com essa superação de maneira quase dicotômica, bem x mal, no conflito organizado entre vida e morte, Ana x Beth.
Por outro lado, apesar desta organização que impede o livre fluxo da vida interior dos personagens para além do planejamento narrativo, percebemos na narradora uma extrema afetividade e delicadeza no tratar de seus personagens. O tema da morte de um filho é importante para além dos limites literários e é impossível não se deixar tocar por uma história assim. Quem passa por isso na vida, dificilmente terá o mal encarnado em uma pessoa nociva de carne e osso, que se pode afastar e seguir em diante. A luta verdadeira é pela superação da dor interna, da sensação de fim de tudo, de perda de sentido. Mas, se alguém morre, outros estão vivos ao redor. A verdadeira missão de Ana é redescobrir a filha viva e recuperar os dez anos de convívio esmagados pela dor extrema.
Hilda Lucas, bahiana, radicada em São Paulo, com uma longa passagem pelo Rio, é advogada, tem 52 anos e, escolheu uma das mais terríveis perdas para renascer pela via da literatura, pois, Memórias líquidas, segundo a própria escritora, é uma retomada. Em entrevista no site www.bmsr.com.br, ela diz: “Um ano após enfrentar uma separação, lancei Memórias Líquidas com meu nome de solteira. Foi como resgatar minha certidão de nascimento, meu código genético, minha alma”. Portanto, o livro, além de falar do resgate familiar da lembrança de uma criança morta, serviu de processo de reencontro da autora consigo mesma, com suas origens perdidas. A literatura cumpriu seu papel.

 

Quinta-feira, Julho 13, 2006

As mil imagens da palavra

Quantas imagens cabem na palavra: amor?
Quantas imagens cabem na palavra: luz?
Quantas imagens cabem na palavra: vida?

Quantas palavras uma imagem impede de serem ditas?

Domingo, Julho 02, 2006

Voltando a ser resenhista

No capítulo das retomadas, a principal foi a da atividade de resenhista. Primeiro com este blog, pelo simples desejo de reencontrar a literatura. Depois, procurando antigos contatos, cheguei ao Globo. Minha primeira resenha publicada em papel pode ser vista aqui: http://tinyurl.com/m36rf.

Escrever sobre livros e literatura gera um sentimento de plenitude e realização que nenhuma outra atividade provoca.

Quinta-feira, Junho 22, 2006

Frase perfeita de José Castello

"Toda crítica é, também, autocrítica, ou, pelo menos, o refinamento de uma visão de si."

Em: http://txt.estado.com.br/editorias/2006/06/18/cad-1.93.2.20060618.38.1.xml

Terça-feira, Maio 30, 2006

A história de Despereaux, Kate DiCamillo

A história de Despereaux, que conta o que aconteceu com um camundongo uma princesa, um pouco de sopa e um carretel de linha.
Kate DiCamillo, com ilustrações de ilustrações de Timothy Basil Ering, tradução de Luzia Aparecida dos Santos, revisada por Monica Stahel. São Paulo, Editora Martins Fontes, 2005.
Título original: The Tale of Despereaux. ISBN: 85-336-2162-0


Esse é um livro que merece um lugarzinho especial na estante. Os Pequenos Leitores estão alfabetizados e começam a ter mais fôlego. O Pequeno Leitor tem demonstrando uma grande facilidade nesse terreno. Com dois meses de alfabetização, mostra-se ávido por letras, nada escapa ao seu ímpeto leitor. A história de Despereaux chegou à família como um presente para a Pequena Leitora. O livro está sendo lido aos pouquinhos, em leituras orais noturnas. No entanto, ontem ele demonstrou sua força.
Depois que a Pequena Leitora adormeceu, o que acontece bem rapidamente, em geral, basta uma página, o Pequeno Leitor quis continuar. Li mais três capítulos e disse que estava com sono. Mas ele quis continuar. Disse então que ele lesse por sua conta, pois eu ia dormir. E ele quis continuar. Não se fez de rogado e atracou-se com o livro. Alternou leitura em voz alta, murmurada e para si. Não queria largar a história do camundongo Despereaux. A leitura trôpega, sílaba a sílaba, palavras difíceis, quebras de palavras em quebras de linha. Nada o impediu. Quis ir para a minha cama, quis ir para a mesa onde A Leitora estudava, voltou para a minha cama. Os olhos ficaram vermelhos e lacrimejantes pelo esforço. Mas não se deteve. Foi preciso um ultimato, pois o dia seguinte começava cedo e era preciso dormir.

Acontece que o livrinho é sensacional. Fazia tempo que não encontrava um texto literário com tamanha pureza e profundidade. Uma profundidade singela, se é que isso é possível, e delicada. A autora está contando uma história e faz questão de deixar isso claro. Fala ao leitor o tempo todo. Um leitor que precisa ser instruído, mas que é capaz de aprender:
"(...)Você sabe o que significa empático?
Pois vou lhe dizer. Ao ser levada para o calabouço, com uma faca enorme apontada para as costas, tentando manter a coragem, ainda assim a princesafoi capaz de pensar na pessoa que está segurando a faca.
Ela pensava: "Pobre mig, ela quer tanto ser princesa e acha que assim vai conseguir. Pobre Mig. Como será desejar alguma coisa tão desesperadamente?"
Isso, leitor, é empatia.
E agora você tem um pequeno mapa do coração da princesa (ódio, dor, gentileza, empatia), o coração que ela carregava ao descer a escada dourada, ao atravessar a cozinha e, finalmente, quando o céu lá fora começava a clarear, ao chegar à escuridão do calabouço com o rato e a criada"
A jovem princesa chama-se Ervilha. A jovem e gorducha criada chama-se Migalha Sementeira. Existe um camundongo heróico, Despereaux, e um rato maldoso, Chiaroscuro, ou Roscuro. Além da delicadeza do estilo, até mesmo ao narrar mortes, acidentes e assassinatos, o que me agradou bastante foi o desenho dos personagens. Digo desenhos de propósito, pois ela revela as ambivalências dos sentimentos, os "mapas dos corações" com muita clareza. As ações do vilão, dessa forma, podem ser perdoadas, ou antes, compreendidas, pois a autora mostra que sua motivação é inocente, ainda que suas ações sejam condenáveis.
Lembro dos estudos de teoria literária, em que havia uma classificação entre personagens planos e redondos. Os planos são aqueles personagens contínuos, que começam e terminam uma história com o mesmo caráter, que não trazem surpresas. Os redondos são personagens de várias faces, que se mostram conforme a luz incide sobre eles. Capazes de se transformar. O mergulho na luz e na escuridão dos personagens de Despereaux mostram o seu percurso interno de aprendizagem, de todos eles. O ambiente principal da história, um castelo dividido entre as luzes dos salões, a penumbra da cozinha e a escuridão do calabouço, é o cenário perfeito e didático para a representação dos movimentos dos personagens. A simetria entre Despereaux e Roscuro é interessante, pois, tanto a descida ao calabouço do camundongo, quanto a ascensão aos salões iluminados do rato acabam por aproximá-los e os antagonismos são desfeitos. Esse não é um final óbvio em um livro infanto-juvenil. Mas, não se trata de um livro óbvio. A felicidade do final não é do tipo "para sempre", mas sim uma situação de retorno a um equilíbrio não garantido.
Um último comentário. Despereaux salva-se da morte no calabouço por ter uma história para contar. E, como lhe diz o carcereiro, "Histórias são luz. A luz é preciosa num mundo tão escuro. Comece do começo, conte uma história para Gregório. Faça alguma luz."
Por que será que gostamos tanto de histórias?

Domingo, Maio 28, 2006

Registro de leituras

E o pulso ainda pulsa...

  • A ocasião, Juan Jose Saer, li faz uns dois ou três meses. Ficou em cima da mesa, está me chamando, vou acabar comentando.

Quinta-feira, Abril 06, 2006

Afinal de contas...

Quem se interessa por literatura?

(e muito o menos pelo que se publica aqui ;-)

Evoé!

Outro do Paulo Henriques Britto, em Macau

"A quem possa interessar", Paulo Henriques Britto, em Macau

 

“A quem possa interessar”? Por
não se chega jamais a parte alguma.

O impulso é de outra espécie: uma pressão
quem vem de dentro, e incomoda. No fundo

é isso que importa. O resto é o resto.
E no entanto nesse resto está o múnus

público da coisa – vá o termo -
o quetrabalho, o que impõe um custo

sem benefício claro à vista, e às vezes
acaba interessando até quem nunca

se imaginou como destinatário
de uma – digamos assim – “carta ao mundo”,

que é o que a coisa acaba sendo e tendo sido
desde o começo. Como sempre. Como tudo.

Quinta-feira, Março 30, 2006

Um pulo no Afeganistão

O caçador de pipas

Khaled Hosseini

Tradução de Maria Helena Rouanet

Editora Nova Fronteira

 

Apenas uma nota rápida, pois tenho que trabalhar.

Acho surpreendente este livro estar tanto tempo na lista dos mais vendidos. O livro é bom, aliás, é muito bom. Mas a história é triste e dura. Aliás, como escrever sobre um país como o Afeganistão de forma leve?

 

Fica a pergunta: o que vem atraindo tantos leitores para ele?

Quarta-feira, Março 22, 2006

na verdade, uma outra forma de vida

BIODIVERSIDADE

Paulo Henriques Britto, Macau, ed. Companhia das Letras

maneiras mais fáceis de se expor ao ridículo,

que não requerem prática, oficina, suor.

Maneiras mais simpáticas de pagar mico

e dizer olha eu aqui, sou único, me amem por favor.

Porémquem se preste a esse papel esdrúxulo,

comoquem não se vexe de ler e decifrar

essas palavras bestas estrebuchando inúteis,

cágados com as quatro patas viradas pro ar.

Então essa fala esquisita, aparentemente anárquica,

de repente é mais do que isso, é uma voz, talvez,

do outro lado da linha formigando de estática,

dizendo algo mais que testando, testando, um dois três,

câmbio? Quem sabe esses cascos invertidos,

incapazes de reassumir a posição natural,

não são na verdade uma outra forma de vida,

tipo um ramo alternativo do reino animal

Terça-feira, Fevereiro 14, 2006

Filosofia é barro.
Literatura é água.

Quarta-feira, Janeiro 18, 2006

O jogo da amarelinha - uma experiência radical de leitura (Uma despedida?)

Algumas coisas tem data e momento certo para acontecer. Minha primeira leitura de O jogo da amarelinha, por exemplo. Eu tinha uns 18 ou 19 anos. Havia passado no vestibular, para o segundo semestre. Tinha livre alguns meses, que foram dedicados a três atividades decisivas em minha vida: um curso de datilografia, conquistar aquela que viria a ser minha esposa e ler O jogo da amarelinha.

Para me manter dentro do tema do blog, falo apenas da última. Eu tinha muito tempo livre e um livro pesado para me acompanhar. Iniciei a leitura pela ordem sugerida do autor, indo e voltando de um lado para outro, intercalando capítulos, mergulhando em um universo cada vez mais denso de personagens estranhos, exóticos, incrivelmente inteligentes e cultos. As discussões do Clube da Serpente deixavam-me perplexo. Falavam de coisas, realidades, altamente intelectuais. Uma literatura muito diferente daquela feita pelos escritores brasileiros da década de 80, por exemplo. Cortázar diz que o livro antecedeu seu período de maior engajamento político, o que talvez explique o tom existencial do romance, profundamente filosófico. Eu fiquei encantado pelo desfile cultural de artes plásticas, filosofia, jazz, música clássica. Como tudo aquilo criava o cenário parisiense daquele bando de exilados. Como as citações e análises não apareciam gratuitamente, mas dentro do contexto de discussões e questionamentos altamente pertinentes para a vida daquelas pessoas e, principalmente, para a vida de Horácio Oliveira, o protagonista.

Mesmo o ir e vir entre os capítulos tinha uma razão de ser, não se tratava apenas de uma brincadeira estética, um experimento narrativo. Era algo que funcionava. Criava um caminho intrincado de leitura, que ia me arrastando para dentro do livro.

Eu morava em uma casa em meio a um grande quintal. Ao lado da minha mesa de estudos e trabalho, havia uma janela que dava para um verde bambuzal. Pois, em um determinado momento da leitura, fechei as duas janelas do meu quarto. Fechei a porta. Deixei apenas uma pequena luminária apontada para as páginas do livro. Tratava-se de uma relação com a leitura que eu ainda não havia experimentado. Para não me confundir, ia marcando com um X os capítulos lidos, como as pedrinhas deixadas pelo caminho por João e Maria, mas ainda assim, eu me perdi naquelas páginas.

Nascido em Porto Alegre, o chimarrão me era familiar e eu passei a acompanhar a leitura com uma cuia de mate fervente ao meu lado, que sorvia junto com o argentino Oliveira. Eu, em minha adolescência terminal, me identificava com os becos sem saída para onde o existencialismo de Oliveira o arrastava. Os sapatos molhados, o opressivo ambiente europeu, a chuva e a progressiva alienação.

O livro não me fez mais feliz. A imagem que tinha na época era a de uma rachadura que havia atravessado meu cérebro de fora a fora. Após a leitura, algo havia se deslocado, uma perda de foco da realidade. Uma dificuldade de entender e justificar as coisas. Um ceticismo e uma amargura acentuados, que me acompanham até hoje. Não, culpo o livro pela meu cansaço ou depressão, digamos que ele tenha agravado esses traços. As leituras dessa época eram similares. Kafka, Sartre, Poe, Dostoievski...

Passados mais de vinte anos, tentei retomar a leitura de Rayuela. Não deu. Não sou mais aquele leitor e não tenho mais vontade de percorrer novamente as crises existenciais do egoísta Oliveira. Hoje, minha vida tem sentido. Pessoas dependem de mim, sou importante para elas e nãolugar para o tipo de questionamento existencial de vinte anos atrás.

A leitura ficou gravada em minha alma, com certeza. Hoje me dou conta que foi digerida e processada, cumpriu seu papel. Talvez um dia, quem sabe...

Tenho desafios de leitura importantes na minha mesa de cabeceira, Ulisses, por exemplo. Não sei se a vida dará espaço para um novo mergulho como aquele. A mente e o corpo cansados, o pouco tempo que sobra dedicado aos filhos ou ao sono. A literatura restrita a anotações jogadas num blog e alguma nostalgia.

Quarta-feira, Dezembro 21, 2005

Cortázar e as coisas

Meu primeiro encontro com Cortázar foi num livro de escola, da quinta série, chamado Criatividade. estava uma das pequenas histórias dos cronópios. Falava de um cronópio que, ao se olhar no espelho, viu outra coisa, pois a porta do armário, onde ficava o espelho, estava entreaberta. Em pânico, o Cronópio achou que tudo estava fora de lugar. Não lembro os detalhes, também não achei em casa o meu exemplar de Histórias de Cronópios e de Famas, mas, a aflição do cronópio era se, ao meter as mãos no bolso para pegar as chaves, encontrasse um açucareiro e dentro do açucareiro, botões em lugar do açúcar e assim por diante. Uma desorganização total das coisas no mundo.

Na leitura de Rayuela, as coisas também ganham um realce. No primeiro capítulo ("¿Encontraria a la Maga?”), há um longo trecho sobre uma cerimônia fúnebre para um guarda-chuva, arremessado do alto de uma ponte após ter se desfeito sob um temporal. O capítulo 41, aquele pelo qual Cortázar começou a escrever o livro, Oliveira está mergulhado na edificante tarefa de endireitar pregos tortos à marteladas, com grande prejuízo para seus dedos. No incomensurável capítulo 28, um pesadelo, as cuidadosas instruções para ligar o tocadiscos, “Encienda el tocadiscos, ese botón balnco al borde de la chimenea”. O que faz uma frase tão prosaica assim em um romance dessa dimensão?

Lembro também que ele tem uma série de narrativas que são instruções, para subir uma escada, para atravessar uma piscina...

Em todo Rayuela, as coisas, os objetos, aparecem como molduras, como formas de dar contexto aos personagens, às palavras. Não sei muito bem que significado dar a isso, mas a frase dele, “Sob a dor física, como funda picada metafísica, abunda a literatura” (que também me escapa onde encontrei, vou pesquisar) está sempre voltando para a minha cabeça. O que é o homem sem as coisas? Elas são como lastros da realidade. Se os objetos tem suas funções deslocadas, suas finalidades perdidas, nós perdemos o vínculo com a realidade e enlouquecemos. Lastros, como os de um balão. Afinal de contas, para que servem pregos tortos?

Terça-feira, Dezembro 13, 2005

Pedro Páramo

Talvez um dia eu comente esse livrinho (pequeno grande), que li há muitos anos atrás e, como os bons livros, marcou minha memória. Mas, enquanto não escrevo de próprio punho, fica o link e um bom comentário do No Mínimo, assinado por Antonio Fernando Borges. A frase que ficou, e que exprime uma das razões de ser deste blog:

“(...)Em tal reino da quantidade e do absurdo – onde milhões de dólares escoam por valeriodutos como se fossem “trocados”, e as dezenas de mortes violentas pelo mundo a fora se reduzem a episódios rotineiros do jornalismo diário –, talvez só mesmo uma atividade em extinção como a literatura ainda possa produzir algum tipo de impacto, sobretudo quando opera às avessas, pela via da exigüidade e do silêncio.(...)”

Por isso Nárnia, por isso Conrad, por isso Cronópios. Por isso. Evasão deliberada.

Terça-feira, Dezembro 06, 2005

Jogo da amarelinha 2 - Inveja crítica

A edição de Rayuela que tenho é das Ediciones Cátedra, com introdução e comentários de Andrés Amorós. Uma edição acadêmica, explicativa. Em um determinado ponto da introdução, ele escreve:

 

"(...) Creo que entiendo Rayuela: lo que ha hecho su autor, lo que ha querido hacer, la corriente de humor y de inteligencia que corre por debajo de estas páginas. Cuando he conocido a Julio Cortázar (!) – hemos charlado, nos hemos escrito – lo he confirmado."

 

Linhas antes, Andrés Amorós declara sua empatia pelo livro, como existem livros com o qual ele se identifica e comoaqueles no qual não consegue penetrar, "por mucho que aplique sobre ellos las técnicas de análisis literario que me han enseñado...".

Fiquei pensando. Que grande privilégio é ter conhecido Cortázar e conversado com ele sobre seus livros. Que maravilha para um crítico literário poder trocar impressões com o autor de suas obras preferidas.

Por outro lado, também me lembrei das lições aprendidas nas aulas de estudos de textos da faculdade de letras, de minha boa professora Célia Pedrosa e do completo Silviano Santiago. Muitas vezes, alguém falava, "mas o que o autor quis dizer aqui foi..." Do ponto de vista do leitor ativo - e o crítico literário não é mais do que isso, um leitor que constrói leituras - não importa tanto o que o autor quis dizer, mas sim, o que você, leitor, encontrou. Isso é básico. Não desmerece a troca de informações com o autor. Imagine, poder falar ao Cortázar o que você sentiu e viveu ao ler Rayuela?! Ouvir o que ele acha disso?! Mas, o nível de leitura mais importante é aquele incompartilhável. Uma leitura profunda, com efeitos sobre a pessoa do leitor, algo que poucos livros alcançam e quando o fazem, se tornam clássicos. Até porque, um dos temas que percebo centrais em Rayuela é a impossibilidade da comunicação, do pleno compartilhamento dos sentimentos e emoções, mesmo com as pessoas mais próximas de você. No caso de Horário Oliveira, essa impossibilidade chega a extremos. No caso dele, o processo de alienação da realidade pelo qual ele passa é causado por uma excessiva atividade intelectual, ou seja, excesso de "inteligência" e por uma incapacidade emocional de viver seus vínculos afetivos, ou seja, medo de amar, pura e simplesmente. Essa é a impressão de leitura que guardo comigo, de um livro que li há uns 20 anos atrás e que agora volta a me chamar. Será que se eu perguntasse a Cortázar se "era isso que ele queria dizer", ele me confirmará? É será que isso faz alguma diferença? Com certeza não. Em certa medida, o autor de um livro é ele mesmo apenas mais um leitor. Um leitor com um pouco mais de propriedade sobre o texto, mas um leitor.

Segunda-feira, Dezembro 05, 2005

O jogo da amarelinha

Sinto que devo falar desse livro. A mais radical experiência de leitura pela qual passei. Devo falar de como cheguei ao Cortázar, ao ler uma das pequenas crônicas dos cronópios em um livro na quinta-série. Por enquanto, jogo a pedra na casa mais alta, para me lembrar como fui saltando, em um , de casa em casa até chegar ao:

- Capítulo 28, de Rayuela.

Terça-feira, Novembro 29, 2005

Uma nota sobre livros de auto-ajuda

A literatura de auto-ajuda é um dos principais filões editoriais atuais. A quantidade de títulos, das mais diversas áreas, é impressionante. Tal força não pode ser desdenhada. Como classificar de ruim uma variedade tão grande de títulos? Alguma coisa deve se salvar.

li dois livros da editora Sextante, especializada na área, cuja exceção é o Código Da Vinci. Na verdade, li um livro e meio, o segundo está em andamento.

O primeiro foi A última grande lição, de Mitch Albom, tradução de José J. Veiga (!)*. O segundo, cuja leitura avança com facilidade, é Velejando com a vida, de Richard Bode, tradução de Maria Luiza Newlands. Gostei dos dois. Não reconheço grandes méritos literários no primeiro, mas gostei assim mesmo. Foi uma leitura anotada, de lápis na mão. Agradável, mas sem grandes lições além da velha e boa sabedoria baseada no bom senso e no amor. O livro tem valor e a história de Mitch Albom com o seu professor moribundo vale à pena ser contada. isso é suficiente e justifica a publicação. Apesar de todas as anotações, pouca coisa ficou registrada em minha mente, precisaria retornar ao livro para recuperar as lembranças e anotações. O que me deixa em dúvida quanto a diferença que uma leitura assim pode fazer na vida das pessoas.

O segundo, pelo menos para mim, tem mais a acrescentar, principalmente porque gosto de barcos e de velejar e o livro trata disso. A cada capítulo, Bode fala de uma situação que enfrentou quando velejava em um pequeno barco em sua juventude, nevoeiro, mudanças de vento, calmaria, peças que se quebram, etc, e trás a situação para um momento de sua vida adulta, refletindo o que o barco, o vento e o mar ensinaram para ele. É bonito, é agradável, mas não é profundo, apenas, como o outro, sensato. Não acho que isso tire o valor de nenhum deles. Com certeza, pensarei nesse livro quando estiver velejando novamente, há uma identificação pessoal, no caso. No entanto, essa identificação não será comum a todos os leitores e não sei que efeito possa ter em outras pessoas. As lições estão . Assim como estão em Fernão Capelo Gaivota, ou em O pequeno príncipe.

Quando eu digo que não são profundos, penso em Dostoiévsky, por exemplo, o grande narrador das almas torturadas. O homem não é sensato, a humanidade não é sensata. A literatura não pode tratar dos grandes temas sob o ponto de vista do que é sensato e fazendo julgamentos dos que não se enquadram. Talvez esteja o "demérito" da literatura de auto-ajuda. Mas, em nenhum desses dois casos, pelo menos, percebi a pretensão de fazer alta literatura. São pessoas que passaram por experiências marcantes e que se dispuseram a compartilhá-las com outras pessoas. São relatos pessoais, alguma coisa fica, nem que seja o prazer de ler uma prosa fluida, que mal não faz e traz conforto.

 

*O asterisco fica por conta de a editora, em seu site, na apresentação do livro, simplesmente omitir o nome do tradutor. O que é grave por si e ainda pior por se tratar de um escritor do calibre de José J. Veiga. Mais respeito pelo profissional, pessoal, por favor! 

Segunda-feira, Novembro 28, 2005

Admiração leitora

Da Pequena Leitora, 9 anos, ao ver o título Gênio, os 100 autores mais criativos da história da literatura:

- Tem a Ruth Rocha?

Merecia ser incluída, por causa disso.

Sexta-feira, Novembro 25, 2005

Gênio, Harold Bloom (i)

Gênio, Bloom, Harold. Tradução de José Roberto O'Shea, Ed. Objetiva.

Na esquina da Rua Buarque de Macedo com Rua do Catete existe um sebo de aspecto muito importante. Loja bonita, ampla e atraente. Fica no meu caminho de casa, quando estou voltando com a Pequena Leitora do ballet, ou do judô, com o Pequeno Leitor. Sempre olho a vitrine. Hoje, estava esse belo tijolo, que eu observava a tempos em outras prateleiras. Tinha esperança de ganhá-lo de presente de meu amigo que trabalhava na editora Objetiva, mas, ele saiu de e essa fonte secou. Foi bom enquanto durou :-) Tomara que ele tenha o sucesso que merece em seu novo projeto.

Bem, vi o livro de Bloom na vitrine e resolvi perguntar o preço: R$ 20,00! Eles tinham diversos volumes, lacrados dentro de plásticos. Novos e virgens. O preço normal desse livro seria de uns R$ 80,00. Comprei na hora e não perguntei como eles conseguiam tal preço. São 828 preciosas páginas em um projeto gráfico de qualidade. Um volume sólido, para me acompanhar por alguns anos de leituras ocasionais.

Como não podia deixar de ser, conheci Bloom por sua obra para "crianças", Contos e poemas para crianças extremamente inteligentes de todas as idades. Adoro antologias e as de Bloom são modelares. Antologias são declarações de amor à literatura e, para o leitor, portões para diversos senderos que se bifurcan.

Não sei como será essa leitura. Não há de ser fácil, não há de ser breve. Ele fala de Shakespeare, Cervantes, Montaigne, Milton, Sócrates, Platão, Thomas Mann, Freud, Nietzche, Kafka, Proust... São 100 gênios e ele se propõe a identificar a raiz da genialidade. gostei do prefácio. Um pequeno trecho:

"Ninguém havia de implicar com a idéia de se estudar o contexto de uma obra. Mas reduzir literatura, espiritualidade ou idéias de um historicismo tendencioso é algo que não me interessa. As mesmas pressões sociais, econômicas e culturais produzem, simultaneamente, obras imortais e obras datadas. Thomas Middleton, Philip Massinger e George Chapman vivenciava a mesma energia cultural que, supostamente, modou Hamlet e Rei Lear. Mas as 25 melhores peças de Shakespeare (de um total de 39) não são obras datadas. Se não conseguimos outro meio de explicar Shakespeare (ou Dante, Cervantes, Goethe, Walt Whitman), por que não retomar o estudo da antiga idéia de gênio? Habilidade não é algo inato; genialidade o será, necessariamente."

Antes de mergulhar no mundo de Bloom, a impressão que tenho dele é a de alguém que milita pela preservação de uma forma de arte que vai se perdendo: a boa e velha e formal literatura. Esse livro será um desafio para mim. Assim como Ulisses, em sua nova tradução, também da Objetiva, que repousa em minha mesa de cabeceira e é visitado de vez em quando. Não são livros para serem lidos em nossos tempos. A literatura requer um ritmo do qual estamos cada vez mais distantes, em que a profundidade se perde e a informação interrompe a formação. Enfim...

Terça-feira, Novembro 08, 2005

Crônicas de Nárnia (ii) - Evasão/Invasão

Não foi por acaso que falei em evasão ao escrever sobre Nárnia.

As passagens entre mundos são uma constante em todos os livros que formam a série. Portões, passagens, acessos estão presentes em todos. A começar pelo O leão, a feiticeira e o guarda-roupa. Desde o ponto de partida.

O início da história são os quatro irmãos tendo que sair de Londres, fugindo da guerra, para se proteger em uma casa de campo. Ao se esconderem de novo, ocultando-se dos visitantes, eles entram no guarda-roupa e descobrem a passagem para Nárnia. Ou seja, saem da Inglaterra bombardeada para um mundo dominado pela Feiticeira Branca. Mas, a chegada deles desencadeia os acontecimentos que resultam na libertação de Nárnia e os trasnforma em reis e rainhas.

Quem não sonha em poder sair da realidade por uma passagem tão inesperada quanto um guarda-roupa sem fundo e sair em um reino que se liberta com sua chegada?

Isso me fez lembrar de um outro livro em que a passagem entre mundos é importante, Os meninos aquáticos, de Charles Kingsley, que também li pela primeira vez mais ou menos aos doze anos, uma leitura próxima de Nárnia.

Na época, tive um sonho. Sonhei que, sob o tapetinho que ficava ao lado da cama de meus pais, havia uma passagem para o mundo aquático do livro, em que meninos desenvolviam guelras e se trasnformavam em seres marinhos. O sonho foi tão real, que, durante o dia, bem acordado, sem ninguém mais em casa, cheguei a ir até o quarto dos meus pais e buscar esperançosamente uma passagem que existia em meus sonhos. Lembro que eu sabia que nada iria encontrar, mas ainda assim, quem sabe?

Quarta-feira, Novembro 02, 2005

Nárnia, C.S. Lewis (i)

As Crônicas de Nárnia, C.S. Lewis, Martins Fontes, Trad. Paulo Mendes Campos e Silêda Steuernagel (A última batalha)

 

Literatura de evasão ou literatura de invasão? Será toda a literatura infantil, ou infanto-juvenil, evasiva ou invasiva do mundo das crianças? Que grande necessidade de fantasia é essa que as crianças têm? E os adultos, como ficam nessa história? Enfim, qual é o encantamento? Quando é que a fantasia nos invade?

Nárnia é puro encantamento. Até mesmo para adultos que não tenham se deixado esmagar por coisas como contas a pagar, participação de mercado, ou ainda, e pior ainda, que não tenham deixado a criação dos filhos se transformar em um peso esmagador!

Nárnia me acompanha há muitos séculos, desde o início da história, não muito depois do final da pré-história. (História é quando lembramos o que aconteceu, Pré-história é quando lembramos de sentimentos, uma época em que tristeza e felicidade são uma coisa misturada).

Era o tempo dos livros de bolso das Edições de Ouro, agora Ediouro, quando a editora enviava seu jornalzinho para as escolas e nós escolhíamos os livros. Com data marcada, as encomendas chegavam em pacotes devidamente identificados. Era uma festa! Comentávamos os livrinhos, trocávamos informações e impressões. Começava-se a formar cabeças leitoras e críticas. Bem, esse assunto merece um texto à parte.

O leão, a feiticeira e o guarda-roupa veio em uma dessas encomendas, se não me engano (afinal, era o começo da História...), mas não em meu nome, não foi descoberta minha. A descoberta foi da Irmã Leitora Mais Velha, o que deu ao livro uma aura de leitura quase adulta pois ela devia ter uns quinze anos e eu, uns dez. Tratava-se de um livro difícil, denso...

Na época, eu não sabia que existiam outros livros da série, mas, esse primeiro, ficou marcado, principalmente por seu princípio: um grupo de crianças que se esconde em um guarda-roupa e encontra uma passagem para o mundo da fantasia mais plena se possa imaginar, o reino de Nárnia.

Sábado, Outubro 29, 2005

Próximo: Crônicas de Nárnia, C.S. Lewis

Em releitura coletiva com a Família Leitora! Post em andamento :-)

Quinta-feira, Outubro 06, 2005

O lingüísta e o imperador, Daniel Myerson, tradução de Domingos Demasi, Ediouro.

Quem já esteve no Museu Britânico, provavelmente viu a Pedra de Roseta. Uma pedra preta, enorme, com gravações em hieróglifos egípcios, grego e demótico (uma versão "popular" do grego de então. Daniel Myerson vai atrás dos fatos por trás da pedra e sua decifração, uma história que gira em torno de dois homens do século 18, Jean-François Champollion e Napoleão Bonaparte. Sob a pena de Myerson, ambos homens da mesma estatura intelectual.
Até ler esse livro, Champollion era para mim apenas o nome do francês que decifrou os hieróglifos. Eu nada sabia sobre a pedra, sobre a campanha egípcia de Napoleão e não tinha a menor idéia de que o Imperador francês buscava o conhecimento sobre o passado egípcio, para além de conquistá-lo no presente. Apesar da justificativa estratégica de ocupar o país para cortar as linhas de comércio inglesas, a motivação de Napoleão era repetir, e superar, os feitos de outros grandes conquistadores, que deixaram sua marca naquele país - principalmente Alexandre, cujo legado foi a cidade de Alexandria, que durante séculos brilhou como centro do saber do mundo Mediterrâneo.
O livro de Myerson não é um romance histórico, no sentido estrito da definição de romance, pois é bastante ensaístico. No entanto, para capturar o leitor, ele utiliza uma fascinante trama paralela: a campanha egípcia de Napoleão e a vida de Champollion - trama entremeada de digressões fascinantes sobre outras campanhas egípcias, como a de Alexandre ou dos romanos.
A história do egito por trás de todos os acontecimentos.
Champollion aparece na história aos doze anos, um jovem inquieto, desde cedo um pensador independente e desajustado, que, ao longo da história revela-se um gênio de grandes proporções. E esse é um dos lados da história menos conhecida. Quando o nome Champollion salta dos livros de história do colegial, é para revelar um homem obcecado pelo conhecimento das línguas antigas e tomado pelo desafio de decifrar os hieróglifos, uma língua morta há mil e quinhentos anos.

Quarta-feira, Outubro 05, 2005

O coração das trevas, Joseph Conrad (final)

No livro Noite do oráculo, de Paul Auster, um dos personagens fala das vezes em que viu o mundo acabar. Invariavelmente, momentos de destruição do homem por si mesmo. O holocausto. Essa é a base do filme Apocalypse now, que Coppola ampliou a partir de O coração das trevas.
Não existe UM fim do mundo. O mundo acaba a cada vez que o homem se destrói, seja individualmente, seja nos grandes holocaustos.
Coppola atualiza para o Vietnam o que os Europeus fizeram durante toda a sua história colonial. A história que Conrad conta poderia se passar em qualquer momento dos 500 séculos das Américas. Até os dias de hoje. Se fosse feita uma adaptação para o horror vivido dentro do Superdome de Nova Orleans, o espírito se manteria.
Assim, a África de Conrad é apenas um pano de fundo para um dos fins do mundo. O coração das trevas é um mergulho nas trevas do coração humano, uma grande metáfora. Conrad se aproveita da cor da pele africana para aprofundar o jogo de luz e escuridão. A escuridão é impenetrável, assim, o homem branco não consegue penetrar na alma dos negros, apenas destruí-los. Assim também, a floresta, a natureza, em seu estado primitivo, original, é impenetrável para o homem branco. Aquele que mergulha nesse mundo, é consumido, como Kurtz. Marlow escapa por pouco. No filme de Coppola, mostra Willard (Marlow) incorporando Kurt no final, mas saindo do inferno e indo para algum lugar desconhecido. Fica claro que Willard não será o mesmo depois daquela missão.
Marlow também é transformado pelo que vive e pelo que NÃO vê. O inimigo é oculto, a escuridão não se revela. Repare que, no filme, não se vê um soldado inimigo. Ouve-se e vê-se as explosões e tiros. O inimigo não se revela. Assim é a África de Conrad, culminando na névoa que os cobre pouco antes de chegar ao acampamento de Kurtz. Tudo é metáfora. O cenário não tem valor em si, mas apenas pela atmosfera que cria para o mergulho de Marlow e seu encontro com Kurtz. Ou consigo mesmo. O verdadeiro inimigo é interno, a resistência à loucura diante do absurdo.
Um dos temas recorrentes do livro que me atraíram é o conceito de inimigo. Conrad fala da brutalidade dos europeus contra os habitantes. O narrador, Marlow, se mostra atônito diante dos que são chamados inimigos. Como considerar como tal uma população que não tem armas para se defender dos tiros brancos. Em um trecho do rio, ele vê um navio francês disparando canhonadas a esmo sobre a floresta, onde, supostamente, havia um acampamento inimigo. Como chamar inimigos quem não pode se defender?
Os "inimigos", em outras circunstâncias, são chamados de trabalhadores ou ainda, de traidores. Os traidores são aqueles condenados por Kurtz, por se voltarem contra a "ordem" instituída por ele. A observação é de Marlow: "(...) aquelas cabeças eram cabeças de rebeldes. Ficou muito chocado porque ri. Rebeldes! Qual seria a próxima definição que iria escutar? Haviam sido chamados de inimigos, criminosos, trabalhadores... e esses eram rebeldes." Tratavam-se de cabeças espetadas em estacas.

Sexta-feira, Setembro 30, 2005

Marlow e o trabalho (O coração das trevas)

"(...) Não gosto de trabalhar. Preferia vagabundear e pensar em todas as coisas boas que podem ser feitas. Não gosto de trabalhar - nenhum homem gosta -, mas gosto do que existe no trabalho - a oportunidade de encontrar-se a si próprio. Sua própria realidade - para você mesmo, não para outros -, aquilo que nenhuma outra pessoa jamais poderia saber. Eles podem apenas ver o resultado final, mas nunca dizer o que realmente significa." (pág. 55)

Marlow está enfiado num posto de comércio nos confins da África. Era para ter encontrado um vapor para o seu comando. Mas o barco partira sem ele e afundara rio acima. O trabalho que o aguarda, em meio a negros derrotados e brancos alienados, é recuperar o barco do fundo do rio e colocá-lo a seu serviço. Tudo está contra ele, nenhum apoio. Faltam peças e ferramentas e tudo demora semanas, meses, para chegar. Coisas básicas, como os rebites com os quais fixar as placas no casco avariado. O trabalho é o que lhe resta, seja por que meio for.

Resenha interessante sobre "O coração..."

Em:
http://www.burburinho.com/20020228.html

Quarta-feira, Setembro 28, 2005

Outras compras de sábado

Além de O coração das trevas, compramos também dois livros para as crianças e um para nossa leitura oral.
Para a pequena leitora, Vovó dragão, e, para o pequeno leitor, A ilha dos dragões, a coincidência dos nomes foi casual.
Para a leitura oral noturna, um livro que estamos adorando, O lingüista e o imperador, sobre Jean-François Champollion e Napoleão Bonaparte. Para quem não sabe, o primeiro foi o lingüista que decifrou os hieróglifos.
Logo mais, eu falo sobre eles.

Terça-feira, Setembro 27, 2005

O coração das trevas, Joseph Conrad

Sábado à noite, resolvi dar uma passada na livraria Argumento, do Rio Design da Barra. A pouca grana me levou ao estande dos livros de bolso da L&PM e acabei comprando O coração das trevas, de Joseph Conrad, tradução de Albino Poli Jr, R$ 12,00 ;-)
Comprei porque era do Joseph Conrad, de quem eu já tinha lido uns contos que não me lembro e o Lord Jim, que gostei. Adoro histórias de aventura e era isso que esperava dele, mas Conrad é muito mais. Não por acaso, os editores colocaram a seguinte citação de Jorge Luís Borges na capa, "É o mais intenso de todos os relatos que a imaginação humana jamais concebeu" e, além disso, foi a base para o filme Apocalipse Now, de Francis Ford Coppola, o que eu não sabia. Não vi o filme, sempre imaginei que fosse mais um violento filme de guerra, mas agora fiquei curioso.
Estou no começo do livro, Marlow, o narrador gosta de "áreas em branco" dos mapas e se sente atraído pelo coração da África ocidental, alimentada pelo Rio Congo, aonde ele pretende trabalhar como capitão de um vapor mercante. O comércio é de marfim, trocado com os nativos por bugingangas diversas.
Na página 40, de 148, já dá para ver que o livro é bárbaro. Pesquisando na Internet, descobri um site sobre o livro, http://www.cwrl.utexas.edu/~waddington/314/group2.html, que considera o livro racista, pelas descrições que Conrad faz dos negros, totalmente animalizados. Ainda é uma impressão inicial, mas não acho que seja racismo. Não sei se é aplicável dizer que Conrad é naturalista, enquanto classificação periódica literária, mas a animalização das descrições que ele faz ressaltam muito mais a crueldade e ignorância branca do que uma possível bestialização dos negros. É brutal.
Aparentemente, à medida que ele se aproxima do coração do continente, a natureza vai corroendo o espírito civilizado. A europa imaculada é desnudada e exposta em sua bestialidade disfarçada. Marlow, ainda incólume, fica espantando em ver como os europeus tratam os negros como inimigos. Como considerar inimigos àquelas criaturas totalmente derrotadas, espoliadas e desprotegidas? Como considerar seres tão fracos como inimigos?
No começo da história, quando ele busca a ajuda de uma tia para que lhe consiga o lugar de capitão no tal vapor, a senhora lhe diz para "arrancar aqueles milhares de ignorantes de seus horríveis costumes". O comentário do Marlow narrador é explícito: "Tentei, então, insinuar que a Companhia tinha o lucro como objetivo".

Leio porque são letras, fossem imagens, via, não lia

Depois que se aprende a ler, torna-se impossível olhar uma palavra sem lê-la. A única possibilidade disso acontecer é a escrita estar em caracteres totalmente indecifráveis.
Alberto Manguel, em seu A história da leitura, conta que, quando aprendeu a ler, foi como se tivesse adquirido mais um sentido. Visão, audição, olfato, tato, paladar e leitura. Faz todo o sentido (valendo o trocadilho), uma vez que a leitura nos oferece mais um meio de absorver o mundo externo. Também uma função vital, porque ininterrupta.