Domingo, Fevereiro 22, 2009
José Saramago responde a Juan Arias
"— Nunca lhe aconteceu de parar e pensar que afirmou algo que podia ser o contrário?
—Digo-o de outra forma: há que se parar e perguntar-se o que se está a dizer. Se o fizermos, veremos que não temos outro remédio se não analisar o que se diz, e então percebemos que às vezes dizemos coisas que não têm o menor sentido.
— Ou que às vezes o dizemos porque outros o disseram, sem refletir sobre isso.
—É, e repetimos coisas que de uma forma passiva se instilaram dentro de nós e nos impregnaram. Estou a dizer coisas que não saõ minhas. Certo, mas, na verdade, que coisas são minhas? Por isso digo que somos feitos de papel. O que é verdadeiramente nosso? Muito pouco, quase nada. Talvez todos sejamos os outros.
—É o que dizia Leonardo Sciascia, nosso querido amigo e escritor siciliano, já falecido: no fundo nunca se escreve nada de novo, mas se reescreve.
— O que não sabemos é desde quando. Realmente, das frases dos literatos se aprende muito. Diante dessa frase de Sciascia, um escritor que sempre admirei muitíssimo, surge-nos a questão: e desde quando nos reescrevemos? Porque deve ter havido um momento em que tudo era novo, e depois disso nada mais é novo, estamos a repetir tudo. Nunca sabemos quando o novo principia."
in: José Saramago: o amor possível. Juan Arias. Ed. Manati.
E aí, me pergunto. Quando e por que escrever, em lugar de ler desenfreadamente? Ou mesmo falar, em lugar de ouvir atentamente? Quem sabe se nos calarmos não consigamos aprender alguma coisa de fato e paremos de nos repetir?
Quarta-feira, Julho 02, 2008
O inusitado
"Lu Hsin, sentado a la cabecera de la mesa, ante el silencio absorto de los invitados, se llevó a los labios una tacita de té... azul. Tomó un sorbo de té azul, respiró, y tomó otro. Terminó la tacita de un sorbo más, y volvió a llenarla com el té azul de una tetera blanca de porcelana traslucida, llena hasta la mitad. Cada uno de los invitados, cinco graves señores mayores, estava sentado frente a una taciyta idéntica a la del anfitrión, llenas asimismo de té azul. Habían obsrvado atentamente a Lu Hsin, aun sin parecer que lo hacían. Como si salieran de un sueño, o dentro de é adquirieran movimiento, alzaro todos a un tiempo la mano derecha, tomaron sus tacitas, y se las llevaron a los labios. Un sorbo, en el silencio perfecto: cinco sorbos. Lo degustaron, pensativos. Reinaba la impresión de que a ellos no se los podrían engañar, no digamos con té chasco, per ni siquiera con um buen colorante puesto en la infusión. Y a pesar de esa certeza, estaban en trance de comprobar una verdad inverosímil. Vaciaron las tacitas confirmando um juicio. Las devolvieron a la mesa con ruiditos secos, espaciados: la música secundaria del té.
— Es té, indudablemente — dijo uno de ellos. Los otros asintieron.
Se sucedieron entonces las congratulaciones a Lu, teñidas de disculpa, como se dijeran que había sido un trámite burocrático más.
Los cinco ancianos, reconocidos expertos en arte, habían sido jurados en un concurso de pintura com té, de los que son tradicionales en nuestro país. Con las distintas variedades de té, aplicadas con pincel sobre los papeles clásicos de los acuarelistas, se obtienen exquisitas coloraciones pardo gresáceas, doradas, amarillas, ocres en todas sus tonalidades, anaranjadas, y hasta un tenue rojo. Pero, nunca azul; de ese color no había antecedentes em los cuantiosos anales de la pintura com té. Todos los colores de un bosque en otoño, pero no el cielo que se alza encima de las copas de los árboles. Todos los colores de un crepúsculo, pero no el que está antes de las transformaciones. Sin embargo, en este concurso se haía presentado una obra íntegramente pintada en azul, en lo más diversos matices del azul, desde el profundo y opaco en el que viven los pulpos, hasta el aéreo y lavado com blanco, en el que flotan nas nubecillas del mediodía. Las obras se juzgabán únicamente por sus valores pictóricos; hacerlo de otro modo habría segnificado rebararse a un nivel artesanal, o de mera curiosidad o hobby. El cuadro azul había superado a los demás presentados, por su inspiración y su destreza técnica; era el mejor, pero ¿era té? Su autor, que no era otro que Lu Hsin, había debido invitar a los jurados a probarlo en su casa. Ahora, el final requisito había sido satisfecho. Bebieron su té, y todos en paz."
Una novela china, César Aira. Ed. Contemporánea.
Terça-feira, Julho 01, 2008
Estranhos mundos superpostos
"[...] Basta dizer que, em algum ponto do tempo, eu me erguerei sobre você com toda a cordialidade possível. Sua alma estará em meus braços. Haverá uma cor pousada em meu ombro. E levarei você embora gentilmente."Fala o narrador, logo nos primeiros parágrafos:
De A menina que roubava livros, Marcus Zusak. Tradução de Vera Ribeiro. Ed. Intrínseca. ©2006
"¿Qué ocurre cuando una vida se desvanece? Quizás otro color desciende sobre el mundo, y se agrega a la gran suma imperfecta y fluctuante."Literatura é influência. E, como eu disse antes, existem outras realidades, a ficção se comunica ao longo de um mundo plano e horizontal, percorrido por leitores. Caso contrário, como dois escritores tão distantes e díspares fariam a mesma associação entre morte e cor? Combinadas as palavras, temos corte.
De Una novela china, César Aira. Ed. Contemporánea. ©1987
Quinta-feira, Junho 26, 2008
Dos começos
Ia dizer inesquecíveis, mas podem me acusar de plágio ou falta de originalidade, a causa do Sérgio Rodrigues e seu Todoprosa. Mas, é verdade, sempre apreciei bons começos, praticamente definem o andamento de todo o resto da leitura.
Dois deles ficaram gravados na memória, o que é difícil, raríssimo, uma vez que minha memória. Bem.
“Encontraria la Maga?”, de O jogo da amarelinha, e “In a whole in the ground, there lived a hobbit”, de O hobbit.
Quando fui a Paris com a esposa, pedi que ela esperasse de um lado da Pont Neuf, eu iria até o outro, depois voltaria e nos encontraríamos no meio. Ela nada entendeu, a minha Maga, que quase nada tem de cronópio e muito de fama. Ah, os papéis que atribuímos a nossas mulheres sem que elas nada saibam...
Pode parecer esdrúxulo misturar Cortazar e Tolkien. Para mim, não. Ambos são, ao fim e ao cabo, literatura de viagem. Adoro Tolkien, adoro suas intermináveis descrições das paisagens da Terra Média, um mundo com uma proporção de realidade que chega ser difícil acreditar que não é de carne e osso, pau e pedra e pó, e nunca mais. E esse começo de O hobbit, bem era um ser minúsculo que um dia botou os pés para fora de seu buraquinho no chão e se perdeu, depois se achou, mas aí já estava irremediavelmente perdido. Horácio Oliveira também era um ser minúsculo, ainda assim nunca coube em seu buraquinho original e teve que sair. Não voltou mais. Quando voltou, não se achou. Irremediavelmente estrangeiro de si. Lamentavelmente, perdeu-se de sua Maga também. Talvez, Rayuella pudesse ter começado assim: "Perderia la Maga?". Sim, perderia. E isso me causa uma profunda tristeza, pois sei bem a importância de encontrarmos a nossa Maga e a mantermos do nosso lado. Por menos Maga que seja. "Matem o cachorro!", gritava Oliveira no final. É, matem o cachorro.
Sexta-feira, Fevereiro 15, 2008
Tradição oral
Após botar as crianças na cama, o pequeno leitor a contragosto ao final de cada capítulo, eu e a esposa leitora nos metemos com o primeiro Espinosa, do Luis Alfredo Garcia-Roza.
Fora isso, terminei de ler Fantasma, do José Castello, que aliás anda sumido. Gostei muito, muito mesmo. Um humor ótimo, ainda que ácido, com toques de amargo, que acho que ele devia transpor para seus artigos por aí. Literatura também é diversão, ainda que ele toque em algumas coisas bem delicadas. Talvez ainda escreva mais longamente sobre esse livro.
E agora, comecei a ler o Dois irmãos, do Milton Hatoum. Estou gostando, principalmente por conhecer um aspecto de Manaus diferente, mais urbano e menos floresta tropical. E a história parece ter a força passional libanesa visível no Lavoura arcaica, do Raduan Nassar, por exemplo. Amores e ódios extremos e absolutos. Parece ser mais uma versão do velho embate de Caim e Abel, Esaú e Jacó...
Segunda-feira, Janeiro 28, 2008
Parménides, César Aira
1
Ésta es la historia triste del escritor Perinola, que vivió acomienzos del siglo quinto antes de Cristo en una colonia griega dela costa italiana del sur. Cuando empezó la historia, aunque ya estaba empezando a dejar de ser joven, era un escirtor joven, una"promesa" como suele decirse; no había gran cosa en la que basar la promesa, pero con poco alcanza, y hasta con nada, si lo que se promete es algo tan iverificabel com la poesía. En realidade no había escrito casi nada, y lo habían leído menos, pero eso no significaba que la consideración (un tanto ambigua, además) en que lo tenía un puñado de entendidos ou supuestos entendido en poesía careciera de todo fundamento. A veces se dan casos de adivinación social, que suelen entrar en la categoría de profecias autocumplidas. Eso puede deberse a que son tan escasos los escritores bueno que cuando aparece uno, entre mil malos, casi no necesita escribir para que alguien se dé cuenta. Y además está el hecho de que las falsas adivinaciones o las promesas que no se cumplen no se toman en cuenta. (...)
Bem, a história que segue descreve os anos de convívio de Perinola e do filósofo pré-socrático Parménides, que, por não ter tempo ou preparo para escrever, contrata os serviços do jovem promissor para escrever seu livro, por ele. Perinola seria o primeiro ghost writer da história. Parménides entrou para história como o filósofo que incluiu a discussão do ser e o não ser na filosofia ocidental. Questão insolúvel sobre a qual os filósofos se debatem eternamente. Pois, César Aira usa a literatura para dar uma rasteira na filosofia e contar sua própria versão sobre o surgimento desse dilema hamletiano.
Quinta-feira, Janeiro 10, 2008
Coisas que eu gostaria de ter escrito (ainda o sono e o tempo)
"É muito tarde, minha cara, e ainda assim vou dormir, sem merecer. Bem, dormir mesmo não vou, apenas sonhar. Como ontem, por exemplo, quando no sonho eu andava até uma ponte ou um cais em cuja amurada por acaso havia dois telefones; eu levava os fones ao ouvido e ficava pedindo notícias dos "confins do mar", mas do telefone só vinha o bramir do oceano e um cântico sem palavras, triste, impressionante. Mesmo depois de perceber que nenhuma voz humana conseguiria sobrepor-se a tais ruídos, não desisti e ali fiquei."
Hoje, estou especialmente sonolento, ainda que muito desperto.
O tempo parado de João Gilberto Noll
Entrar numa livraria e roubar o tempo, comprar livros, é roubar dinheiro da família. Ler é roubar ainda mais tempo, ao mesmo tempo que se desfruta do objeto do crime. O tempo da leitura passou a ser criminoso e marginal.
Comecei a ler por Mínimos, múltiplos, comuns. Um livro estranho. Diz a apresentação, de Wagner Carelli:
João Gilberto Noll passou três anos e quatro meses na aplicada disciplina de escrever toda semana duas narrativas completas, e de porte incomum: cada relato estava confinado a um máximo de 130 palavras.
A primeira delas, que abre a seção chamada Gênese e que começa pelo Nada:
Nadas
Tecido PenumbrosoComo posso sofrer porque as coisas pararam? Elas andavam tão estouvadas! Por que não deixá-las dormir agora um pouco? Tudo se aquietou, é noite, o mundo vive pra dentro, cegando-se ao sol do sonho. Preciso um pouco desse conteúdo inóspito, ermo com um quase-nada. Não, não é morte, é uma espécie de lacuna essencial, sem a aparência eterna do mármore ou, por outro lado, sem as inscrições carcomidas. Pode-se respirar também na contravida. Depois então, a gente volta para o velho ritmo; aí já não nos reconheceremos ao espelho explícito, tamanha a qualidade desse tecido penumbroso que provamos.
É melhor ler um livro, as próximas 130 palavras de Noll, talvez. De madrugada, quem sabe, quando as coisas adormecerem. Mas aí, estarei roubando o tempo do sono, um roubo impossível, pois a vítima sempre se derruba o criminoso na ressaca do dia seguinte.
Quarta-feira, Novembro 28, 2007
O tempo da leitura
Muita gente diz que há muito tempo não lê um livro por falta de tempo. Mas, não é por isso não, é por falta de coisas interessantes para ler. O Harry Potter, por exemplo. Todo mundo leu. Cada novo volume era um tijolo maior e as pessoas os lêem em dias, ou horas, eu inclusive.
Li o último volume em praticamente um dia, certamente em menos de 24 horas. Era uma necessidade, era preciso acabar para me livrar daquilo, da necessidade de ler o que eu já sabia, que Harry não ia morrer e que venceria o Voldemort. Quem é que não sabe o final da maioria das histórias que lemos (ou assistimos no cinema)? Não se trata de chegar ao final, mas de tudo o que acontece até lá. E, se a história for envolvente, o tempo da leitura invade o tempo de tudo o mais. "Mas", alguém pode dizer, "isso é leitura de consumo". Claro que é. E daí? São letras, palavras, frases, parágrafos e páginas, a base de toda a leitura. O tempo, na verdade, é aquele que precisamos para compreender o que lemos. Se a compreensão é direta e sem floreios, a leitura corre. Se precisamos elaborar e refletir, invariavelmente, o tempo diminui.
Segunda-feira, Novembro 19, 2007
Tradução de livro sobre tradução (Eco)
Bom, JK, brincadeiras a parte, o que você escreveu foi:
" É curiosa essa coisa de tradução de um livro sobre tradução. Gostaria de ter mais opiniões a respeito..."
Acho que a tradução de um livro sobre tradução não é diferente da tradução sobre qualquer outro assunto, a não ser talvez por ser algo que desperte um interesse diferente por parte do tradutor. Eu vou falar mais sobre isso quando terminar de ler o livro do Eco, o que deve acontecer em breve. Existem alguns pontos de interesse sim e vou comentá-los. Essa conversa começou lá na comunidade dos tradutores/intérpretes do Orkut, não teve grandes desdobramentos, mas, obviamente é um tema de especial interesse para quem traduz.
Por ora, estou gostando bastante do texto traduzido. Não conheço a tradutora, Eliana Aguiar, mas conheço a Raffaella, que fez a revisão técnica e sei que ela tem background teórico, acadêmico e prático, para garantir um trabalho bem feito
Afora isso, JK, espero que você esteja com boa saúde e mais vivo, ou viva!, que um peixe na água fria!
Domingo, Novembro 18, 2007
Fantasma, José Castello
Estou me divertindo muito, é um humor como o rombóite, que não existe mas dói. Creio ser o único romance publicado dele. Em um passeio fantasmagórico por Curitiba, em que a própria cidade tem mais atmosferas do contornos. Espero, ao final, poder escrever mais longamente sobre o livro. Até por que, convivo em meu dia-a-dia com curitibanos típicos
deslocados no Rio de Janeiro. Pessoas por quem tenho profundo afeto, respeito e admiração e a sorte de serem meus sogros.
Sábado, Novembro 10, 2007
Originalidade
forma artística. A humanidade se renova, as sociedades se modificam, as cabeças acompanham, quer queiram ou não. E o que se escreve, fatalmente reflete isso.
Assim também como o que se lê. Uma mesma obra tem a força de se renovar com os tempos, com novas leituras de novos leitores, ou com novas leituras de um mesmo leitor, ou releitor.
Volta e meia me caem nas mãos livros de autores "novos". Seja para fazer uma resenha, seja para um parecer editorial. Todos são diferentes e originais, o que não quer dizer que sejam necessariamente bons por serem originais. Quer dizer apenas que a renovação é sempre possível. Por isso estamos sempre em busca de novas leituras, de autores novos ou antigos.
Cada leitura é sempre uma primeira vez.
Quarta-feira, Outubro 24, 2007
Quase a mesma coisa, Umberto Eco
Um livro sobre tradução do Umberto Eco é ótimo para a nossa quase invisível profissão. É importante chamar a atenção para o nosso trabalho. Em geral, quando falam de tradutores e tradução é para botar defeito, raramente se escreve na imprensa algo sério sobre o ofício.
Fora isso, o Eco fala de coisas que, quem traduz, já sabe há muito tempo, mas é bom ver em livro, principalmente livro de Umberto Eco. Por exemplo:
"(...) O tradutor, ao contrário, sempre traduz textos, ou seja, enunciados que aparecem em algum contexto lingüístico ou são proferidos em alguma situação específica." (pág. 49)É importante que as pessoas percebam isso muito bem. Muita gente acha que traduzir resume-se a traduzir palavras, bastando para isso olhar no dicionário. Para os clientes que compram tradução, isso é especialmente importante. Quando dizemos a um cliente que cobramos por palavra, às vezes perguntam coisas do tipo "E as palavras repetidas? Tem diferença de preço para palavras grandes e pequenas?". Aí, é preciso explicar que a palavra (ou lauda, ou página, ou caractere) é apenas uma unidade de cobrança, que na verdade, o trabalho do tradutor é traduzir o texto como um todo.
O tipo de leitura que um tradutor faz do texto é algo para um outro post. Por enquanto, fico por aqui, só para não parecer que o blog estava abandonado de vez.
Terça-feira, Fevereiro 27, 2007
Cesar Aira
http://oglobo.globo.com/blogs/prosa/post.asp?cod_post=48706
É o primeiro argentino que leio a fugir descaradamente da sombra onipresente de Borges ou do projeto de totalidade do absurdo de Cortázar. Diferente de tudo o que já li.
Nada contra Borges ou Cortázar, muitíssimo pelo contrário. Mas, como o próprio Aira disse em alguma entrevista que achei ao fazer as pesquisas para a resenha, Borges é uma presença tão forte na literatura argentina que é preciso um esforço para se livrar dele.
Acho que isso vale para todo mundo. Ler Borges é uma experiência total de literatura e é muito difícil "livrar-se" de sua influência. Uma influência tão forte, que essa nota era para ser sobre Cesar Aira e acabou sendo sobre Borges! Mas, Cesar Aira, como eu disse na resenha, dá uma gargalhada na cara da literatura. Uma ruptura necessária na mesmice. Recomendo para qualquer escritor iniciante. É a tal fuga dos clichês, a "quebra dos paradigmas" (argh!).
O sonho de Kafka
"Sonho há pouco: com meu pai andando de bonde em Berlim. A atmosfera metropolitana era dada por inúmeras cancelas destribuídas a intervalos regulares, pintadas em duas cores e com as extremidades rombudas e polidas. De resto, tudo era vazio, mas a quantidade dessas concelas era enorme. Chegamos a um portão, descemos do bonde sem perceber, atravessamos o portão. Atrás dele começava uma parede muito ingreme que meu pai foi escalando quase dançando, com tanta leveza que balançava as pernas no ar. Sem dúvida era uma certa desconsideração o fato de ele não me ajudar, pois eu me esforçava muito para subir, ia de quatro e escorregava várias vezes, como se a parede se tornasse ainda mais íngreme sob meu corpo. Também era muito desagradável o fato de a parede estar coberta de excremento humano que ia grudando em mim, aos flocos, sobretudo no peito. Abaixando o rosto eu percebia a sujeira e tentava limpar com a mão. Quando finalmente cheguei no alto, meu pai, vindo do interior do edifício, abraçou-me e cobriu-me de beijos. Ele vestia uma farda imperial da qual eu bem me lembrava, curta, fora de moda, estofada por dentro como um sofá. "Esse Dr. von Leyden! É um homem extraordinário!", exclamava sem cessar. Mas ele não tinha visitado o homem como médico, mas como alguém que vale a pena conhecer. Eu tinha um certo receito de que me obrigassem a também ir até ele, mas não foi o caso. À esquerda atrás de mim vi um homem sentado de costas num aposento que era todo de vidro. Ficou claro que era o secretário do professor e que meu pai na realidade só falara com ele, e não com o professor em pessoa, mas que mesmo assim tinha reconhecido os méritos do professor através do secretário, de modo que realmente podia julgar o professor como se tivesse falado pessoalmente com ele.
Diário, 6 de maio de 1912"
Comprei o livrinho numa das mais autênticas livrarias do Rio de Janeiro, a Leonardo da Vinci, por preciosos R$ 33,00.
Agradeço de coração as palavras amigas dos colegas tradutores, da comunidade orkutiana Tradutores e Intérpretes.
Quinta-feira, Fevereiro 15, 2007
Kopakabana
Ele passou dois exercícios. Leu a narrativa de um sonho de Kafka para nós e pediu que escrevessemos algo a partir disso. O outro "desafio" era escrever sobre Copacabana sem escrever sobre Copacabana. Ou seja, fizemos uma lista de 50 palavras proibidas, incluindo praia, areia, calçadão, turista, mulher, sol, pivete, camelô, enfim, todas esses clichês infalíveis sobre o Rio e, mais especificamente, sobre Copa. A idéia era fugir dos lugares comuns e tentar falar do bairro de maneira inusitada. Parece que consegui.
Eu juntei as duas coisas e escrevi Kopakabana (http://tinyurl.com/yuxfdd), o "professor" gostou e recomendou a publicação no Rascunho. Está lá, para quem quiser ver.
Faz tempo que o Rio de Janeiro não é mais o Rio de Janeiro. Estamos afundando numa cidade cinzenta, como um cenário de Kafka e estamos nos transformando em insetos, sim. Esse conto mostra como eu, leitor, leio a nossa cidade, cada vez menos tropical. Naturalmente, essa é a leitura que eu faço do meu conto. Mas, no momento em que outra pessoa ler, o conto passa a ser dela e ela (você?) será o autor da sua leitura.
Vou procurar o sonho de Kafka que está por trás da minha história para colocar aqui.
Kafka foi uma leitura importante para mim, acho que ninguém passa incólume por ele. Li umas tantas coisas, faz muito tempo e tudo meio que se mistura. Acho que essa mistura está presente nisso que eu escrevi. Chamam a isso de influência, nesse caso, bem explícita e intencional. Curioso pensar nas influências que não conseguimos identificar. Será que todos os escritores de que gostamos influenciam a gente? Acho que sim, a idéia é essa. Literatura é influência.
Quarta-feira, Dezembro 20, 2006
Recomendação de leitura e Oficina
Aliás, ele oferecerá uma de suas "Oficinas da Imaginação" na Estação das Letras, agora, no início de janeiro. Eu estarei lá.
Terça-feira, Novembro 28, 2006
Outras realidades
Andei longe do blog, por outras atividades mais prementes. Outras realidades que exigiam minha presença, não desenvolvi, ainda, o dom da ubiqüidade.
No entanto, cheguei a uma conclusão importante, por mera observação empírica. Outras realidades têm direito à existência, e existem, de fato. Só que por serem outras, existem de maneira diferente da nossa. Uma delas é a realidade das criações artísticas. Um mundo onde as obras se sucedem, como as cidades, os mares e os acidentes geográficos em nosso planeta. Você pode andar por uma praia, de uma ilha, e encontrar Robinson tentanto arrastar uma enorme canoa para o mar. Avance mais um pouco e verá, ao longe, um cavaleiro bem magro, num cavalo derreado, seguidos por um escudeiro roliço. Cuidado com as grandes planícies, pois você pode ser atropelado por hordas de guerreiros de qualquer época, pois esse é um cenário recorrente de todos os períodos e universos. Imagine esse planeta, esse universo das obras literárias. Assim como o nosso, também infinito. Sabemos que jamais o percorreremos por inteiro.
O universo da literatura está em nossas mentes, coletivamente, comunica-se, interage. Numa concepção borgeana, existem lugares das obras escritas, das obras em andamento e do vir a ser. É uma realidade, diferente dessa física, mas que tem existência. Um mundo que se poderia chamar de platônico, por conceitual, mas não me agrada a idéia platônica de cópias imperfeitas. Criações imperfeitas, por incompletas, talvez. Assim como a nossa, essa outra realidade vive em mutação constante, mesmo quando se trata de obras supostamente acabadas. Um ponto final
pode facilmente se transformar em dois pontos, travessão, ou reticências. E o mundo se transforma novamente.
Sexta-feira, Agosto 25, 2006
A pequena leitora faz poesia sem perceber
A lua não está minguante,
Não está crescente,
Está sorridente! :-)
Carlos, Murilo e Pedro
- Carlos estaria lendo Robinson Crusoé, sentado sob uma mangueira.
- Murilo estaria arremessando pedras para o céu, na esperança de que se incendiassem e virassem novas estrelas.
- Pedro estaria observando-os atentamente, fixando o momento em sua memória, mas sem saber disso, naturalmente.
Quarta-feira, Agosto 23, 2006
A suprema interrupção
O link para a resenha sobre o Nava é:
http://tinyurl.com/elwtj
Mas vale dar uma boa lida no resto do jornal.
Quinta-feira, Agosto 17, 2006
O leitor escreve
O
Júlio
Júlio
O
"
Foram.
Rio , 15 de agosto de 2006
Sexta-feira, Julho 21, 2006
Os prêmios, Julio Cortázar
Abraços,
Daniel
Em busca da maternidade perdida
Resenha publicada no Globo, em 8/7/2006
O
No
A
O
Hilda Lucas, bahiana, radicada
Quinta-feira, Julho 13, 2006
As mil imagens da palavra
Quantas imagens cabem na palavra: amor?
Quantas imagens cabem na palavra: luz?
Quantas imagens cabem na palavra: vida?
Quantas palavras uma imagem impede de serem ditas?
Domingo, Julho 02, 2006
Voltando a ser resenhista
Escrever sobre livros e literatura gera um sentimento de plenitude e realização que nenhuma outra atividade provoca.
Quinta-feira, Junho 22, 2006
Frase perfeita de José Castello
Em: http://txt.estado.com.br/editorias/2006/06/18/cad-1.93.2.20060618.38.1.xml
Terça-feira, Maio 30, 2006
A história de Despereaux, Kate DiCamillo
Kate DiCamillo, com ilustrações de ilustrações de Timothy Basil Ering, tradução de Luzia Aparecida dos Santos, revisada por Monica Stahel. São Paulo, Editora Martins Fontes, 2005.
Título original: The Tale of Despereaux. ISBN: 85-336-2162-0
Esse é um livro que merece um lugarzinho especial na estante. Os Pequenos Leitores estão alfabetizados e começam a ter mais fôlego. O Pequeno Leitor tem demonstrando uma grande facilidade nesse terreno. Com dois meses de alfabetização, mostra-se ávido por letras, nada escapa ao seu ímpeto leitor. A história de Despereaux chegou à família como um presente para a Pequena Leitora. O livro está sendo lido aos pouquinhos, em leituras orais noturnas. No entanto, ontem ele demonstrou sua força.
Depois que a Pequena Leitora adormeceu, o que acontece bem rapidamente, em geral, basta uma página, o Pequeno Leitor quis continuar. Li mais três capítulos e disse que estava com sono. Mas ele quis continuar. Disse então que ele lesse por sua conta, pois eu ia dormir. E ele quis continuar. Não se fez de rogado e atracou-se com o livro. Alternou leitura em voz alta, murmurada e para si. Não queria largar a história do camundongo Despereaux. A leitura trôpega, sílaba a sílaba, palavras difíceis, quebras de palavras em quebras de linha. Nada o impediu. Quis ir para a minha cama, quis ir para a mesa onde A Leitora estudava, voltou para a minha cama. Os olhos ficaram vermelhos e lacrimejantes pelo esforço. Mas não se deteve. Foi preciso um ultimato, pois o dia seguinte começava cedo e era preciso dormir.
Acontece que o livrinho é sensacional. Fazia tempo que não encontrava um texto literário com tamanha pureza e profundidade. Uma profundidade singela, se é que isso é possível, e delicada. A autora está contando uma história e faz questão de deixar isso claro. Fala ao leitor o tempo todo. Um leitor que precisa ser instruído, mas que é capaz de aprender:
"(...)Você sabe o que significa empático?A jovem princesa chama-se Ervilha. A jovem e gorducha criada chama-se Migalha Sementeira. Existe um camundongo heróico, Despereaux, e um rato maldoso, Chiaroscuro, ou Roscuro. Além da delicadeza do estilo, até mesmo ao narrar mortes, acidentes e assassinatos, o que me agradou bastante foi o desenho dos personagens. Digo desenhos de propósito, pois ela revela as ambivalências dos sentimentos, os "mapas dos corações" com muita clareza. As ações do vilão, dessa forma, podem ser perdoadas, ou antes, compreendidas, pois a autora mostra que sua motivação é inocente, ainda que suas ações sejam condenáveis.
Pois vou lhe dizer. Ao ser levada para o calabouço, com uma faca enorme apontada para as costas, tentando manter a coragem, ainda assim a princesafoi capaz de pensar na pessoa que está segurando a faca.
Ela pensava: "Pobre mig, ela quer tanto ser princesa e acha que assim vai conseguir. Pobre Mig. Como será desejar alguma coisa tão desesperadamente?"
Isso, leitor, é empatia.
E agora você tem um pequeno mapa do coração da princesa (ódio, dor, gentileza, empatia), o coração que ela carregava ao descer a escada dourada, ao atravessar a cozinha e, finalmente, quando o céu lá fora começava a clarear, ao chegar à escuridão do calabouço com o rato e a criada"
Lembro dos estudos de teoria literária, em que havia uma classificação entre personagens planos e redondos. Os planos são aqueles personagens contínuos, que começam e terminam uma história com o mesmo caráter, que não trazem surpresas. Os redondos são personagens de várias faces, que se mostram conforme a luz incide sobre eles. Capazes de se transformar. O mergulho na luz e na escuridão dos personagens de Despereaux mostram o seu percurso interno de aprendizagem, de todos eles. O ambiente principal da história, um castelo dividido entre as luzes dos salões, a penumbra da cozinha e a escuridão do calabouço, é o cenário perfeito e didático para a representação dos movimentos dos personagens. A simetria entre Despereaux e Roscuro é interessante, pois, tanto a descida ao calabouço do camundongo, quanto a ascensão aos salões iluminados do rato acabam por aproximá-los e os antagonismos são desfeitos. Esse não é um final óbvio em um livro infanto-juvenil. Mas, não se trata de um livro óbvio. A felicidade do final não é do tipo "para sempre", mas sim uma situação de retorno a um equilíbrio não garantido.
Um último comentário. Despereaux salva-se da morte no calabouço por ter uma história para contar. E, como lhe diz o carcereiro, "Histórias são luz. A luz é preciosa num mundo tão escuro. Comece do começo, conte uma história para Gregório. Faça alguma luz."
Por que será que gostamos tanto de histórias?
Domingo, Maio 28, 2006
Registro de leituras
- A ocasião, Juan Jose Saer, li faz uns dois ou três meses. Ficou em cima da mesa, está me chamando, vou acabar comentando.
- Sailing Alone Around the World, Joshua Slocum
- Equador, Miguel Sousa Tavares. Leitura em voz alta em andamento noturno com A leitora, que é muito chegada aos romances históricos.
Quinta-feira, Abril 06, 2006
Afinal de contas...
(e
Evoé!
Outro do Paulo Henriques Britto, em Macau
"A
“A
O
é
E no
o
acaba interessando
se imaginou
de uma – digamos
Quinta-feira, Março 30, 2006
Um pulo no Afeganistão
O caçador de
Khaled Hosseini
Acho
Fica a
Quarta-feira, Março 22, 2006
na verdade, uma outra forma de vida
Paulo Henriques Britto, Macau, ed.
Há
e
essas
de
do
dizendo
Terça-feira, Fevereiro 14, 2006
Quarta-feira, Janeiro 18, 2006
O jogo da amarelinha - uma experiência radical de leitura (Uma despedida?)
Algumas
Nascido
O
A
Tenho
Quarta-feira, Dezembro 21, 2005
Cortázar e as coisas
Na
Lembro
Terça-feira, Dezembro 13, 2005
Pedro Páramo
Talvez um dia eu comente esse livrinho (pequeno grande), que li há muitos anos atrás e, como os bons livros, marcou minha memória. Mas, enquanto não escrevo de próprio punho, fica o link e um bom comentário do No Mínimo, assinado por Antonio Fernando Borges. A frase que ficou, e que exprime uma das razões de ser deste blog:
(...)Em tal reino da quantidade e do absurdo onde milhões de dólares escoam por valeriodutos como se fossem trocados, e as dezenas de mortes violentas pelo mundo a fora se reduzem a episódios rotineiros do jornalismo diário , talvez só mesmo uma atividade em extinção como a literatura ainda possa produzir algum tipo de impacto, sobretudo quando opera às avessas, pela via da exigüidade e do silêncio.(...)
Por isso Nárnia, por isso Conrad, por isso Cronópios. Por isso. Evasão deliberada.
Terça-feira, Dezembro 06, 2005
Jogo da amarelinha 2 - Inveja crítica
A
"(...) Creo
Fiquei pensando.
Segunda-feira, Dezembro 05, 2005
O jogo da amarelinha
Sinto
-
Terça-feira, Novembro 29, 2005
Uma nota sobre livros de auto-ajuda
A
O
O
*O
Segunda-feira, Novembro 28, 2005
Admiração leitora
Da
- Tem a Ruth
Merecia
Sexta-feira, Novembro 25, 2005
Gênio, Harold Bloom (i)
Na
"
Terça-feira, Novembro 08, 2005
Crônicas de Nárnia (ii) - Evasão/Invasão
As
O
Na
Quarta-feira, Novembro 02, 2005
Nárnia, C.S. Lewis (i)
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Nárnia é
Nárnia
O
Na
Sábado, Outubro 29, 2005
Próximo: Crônicas de Nárnia, C.S. Lewis
Quinta-feira, Outubro 06, 2005
O lingüísta e o imperador, Daniel Myerson, tradução de Domingos Demasi, Ediouro.
Até ler esse livro, Champollion era para mim apenas o nome do francês que decifrou os hieróglifos. Eu nada sabia sobre a pedra, sobre a campanha egípcia de Napoleão e não tinha a menor idéia de que o Imperador francês buscava o conhecimento sobre o passado egípcio, para além de conquistá-lo no presente. Apesar da justificativa estratégica de ocupar o país para cortar as linhas de comércio inglesas, a motivação de Napoleão era repetir, e superar, os feitos de outros grandes conquistadores, que deixaram sua marca naquele país - principalmente Alexandre, cujo legado foi a cidade de Alexandria, que durante séculos brilhou como centro do saber do mundo Mediterrâneo.
O livro de Myerson não é um romance histórico, no sentido estrito da definição de romance, pois é bastante ensaístico. No entanto, para capturar o leitor, ele utiliza uma fascinante trama paralela: a campanha egípcia de Napoleão e a vida de Champollion - trama entremeada de digressões fascinantes sobre outras campanhas egípcias, como a de Alexandre ou dos romanos.
A história do egito por trás de todos os acontecimentos.
Champollion aparece na história aos doze anos, um jovem inquieto, desde cedo um pensador independente e desajustado, que, ao longo da história revela-se um gênio de grandes proporções. E esse é um dos lados da história menos conhecida. Quando o nome Champollion salta dos livros de história do colegial, é para revelar um homem obcecado pelo conhecimento das línguas antigas e tomado pelo desafio de decifrar os hieróglifos, uma língua morta há mil e quinhentos anos.
Quarta-feira, Outubro 05, 2005
O coração das trevas, Joseph Conrad (final)
Não existe UM fim do mundo. O mundo acaba a cada vez que o homem se destrói, seja individualmente, seja nos grandes holocaustos.
Coppola atualiza para o Vietnam o que os Europeus fizeram durante toda a sua história colonial. A história que Conrad conta poderia se passar em qualquer momento dos 500 séculos das Américas. Até os dias de hoje. Se fosse feita uma adaptação para o horror vivido dentro do Superdome de Nova Orleans, o espírito se manteria.
Assim, a África de Conrad é apenas um pano de fundo para um dos fins do mundo. O coração das trevas é um mergulho nas trevas do coração humano, uma grande metáfora. Conrad se aproveita da cor da pele africana para aprofundar o jogo de luz e escuridão. A escuridão é impenetrável, assim, o homem branco não consegue penetrar na alma dos negros, apenas destruí-los. Assim também, a floresta, a natureza, em seu estado primitivo, original, é impenetrável para o homem branco. Aquele que mergulha nesse mundo, é consumido, como Kurtz. Marlow escapa por pouco. No filme de Coppola, mostra Willard (Marlow) incorporando Kurt no final, mas saindo do inferno e indo para algum lugar desconhecido. Fica claro que Willard não será o mesmo depois daquela missão.
Marlow também é transformado pelo que vive e pelo que NÃO vê. O inimigo é oculto, a escuridão não se revela. Repare que, no filme, não se vê um soldado inimigo. Ouve-se e vê-se as explosões e tiros. O inimigo não se revela. Assim é a África de Conrad, culminando na névoa que os cobre pouco antes de chegar ao acampamento de Kurtz. Tudo é metáfora. O cenário não tem valor em si, mas apenas pela atmosfera que cria para o mergulho de Marlow e seu encontro com Kurtz. Ou consigo mesmo. O verdadeiro inimigo é interno, a resistência à loucura diante do absurdo.
Um dos temas recorrentes do livro que me atraíram é o conceito de inimigo. Conrad fala da brutalidade dos europeus contra os habitantes. O narrador, Marlow, se mostra atônito diante dos que são chamados inimigos. Como considerar como tal uma população que não tem armas para se defender dos tiros brancos. Em um trecho do rio, ele vê um navio francês disparando canhonadas a esmo sobre a floresta, onde, supostamente, havia um acampamento inimigo. Como chamar inimigos quem não pode se defender?
Os "inimigos", em outras circunstâncias, são chamados de trabalhadores ou ainda, de traidores. Os traidores são aqueles condenados por Kurtz, por se voltarem contra a "ordem" instituída por ele. A observação é de Marlow: "(...) aquelas cabeças eram cabeças de rebeldes. Ficou muito chocado porque ri. Rebeldes! Qual seria a próxima definição que iria escutar? Haviam sido chamados de inimigos, criminosos, trabalhadores... e esses eram rebeldes." Tratavam-se de cabeças espetadas em estacas.
Sexta-feira, Setembro 30, 2005
Marlow e o trabalho (O coração das trevas)
Marlow está enfiado num posto de comércio nos confins da África. Era para ter encontrado um vapor para o seu comando. Mas o barco partira sem ele e afundara rio acima. O trabalho que o aguarda, em meio a negros derrotados e brancos alienados, é recuperar o barco do fundo do rio e colocá-lo a seu serviço. Tudo está contra ele, nenhum apoio. Faltam peças e ferramentas e tudo demora semanas, meses, para chegar. Coisas básicas, como os rebites com os quais fixar as placas no casco avariado. O trabalho é o que lhe resta, seja por que meio for.
Quarta-feira, Setembro 28, 2005
Outras compras de sábado
Para a pequena leitora, Vovó dragão, e, para o pequeno leitor, A ilha dos dragões, a coincidência dos nomes foi casual.
Para a leitura oral noturna, um livro que estamos adorando, O lingüista e o imperador, sobre Jean-François Champollion e Napoleão Bonaparte. Para quem não sabe, o primeiro foi o lingüista que decifrou os hieróglifos.
Logo mais, eu falo sobre eles.
Terça-feira, Setembro 27, 2005
O coração das trevas, Joseph Conrad
Comprei porque era do Joseph Conrad, de quem eu já tinha lido uns contos que não me lembro e o Lord Jim, que gostei. Adoro histórias de aventura e era isso que esperava dele, mas Conrad é muito mais. Não por acaso, os editores colocaram a seguinte citação de Jorge Luís Borges na capa, "É o mais intenso de todos os relatos que a imaginação humana jamais concebeu" e, além disso, foi a base para o filme Apocalipse Now, de Francis Ford Coppola, o que eu não sabia. Não vi o filme, sempre imaginei que fosse mais um violento filme de guerra, mas agora fiquei curioso.
Estou no começo do livro, Marlow, o narrador gosta de "áreas em branco" dos mapas e se sente atraído pelo coração da África ocidental, alimentada pelo Rio Congo, aonde ele pretende trabalhar como capitão de um vapor mercante. O comércio é de marfim, trocado com os nativos por bugingangas diversas.
Na página 40, de 148, já dá para ver que o livro é bárbaro. Pesquisando na Internet, descobri um site sobre o livro, http://www.cwrl.utexas.edu/~waddington/314/group2.html, que considera o livro racista, pelas descrições que Conrad faz dos negros, totalmente animalizados. Ainda é uma impressão inicial, mas não acho que seja racismo. Não sei se é aplicável dizer que Conrad é naturalista, enquanto classificação periódica literária, mas a animalização das descrições que ele faz ressaltam muito mais a crueldade e ignorância branca do que uma possível bestialização dos negros. É brutal.
Aparentemente, à medida que ele se aproxima do coração do continente, a natureza vai corroendo o espírito civilizado. A europa imaculada é desnudada e exposta em sua bestialidade disfarçada. Marlow, ainda incólume, fica espantando em ver como os europeus tratam os negros como inimigos. Como considerar inimigos àquelas criaturas totalmente derrotadas, espoliadas e desprotegidas? Como considerar seres tão fracos como inimigos?
No começo da história, quando ele busca a ajuda de uma tia para que lhe consiga o lugar de capitão no tal vapor, a senhora lhe diz para "arrancar aqueles milhares de ignorantes de seus horríveis costumes". O comentário do Marlow narrador é explícito: "Tentei, então, insinuar que a Companhia tinha o lucro como objetivo".
Leio porque são letras, fossem imagens, via, não lia
Alberto Manguel, em seu A história da leitura, conta que, quando aprendeu a ler, foi como se tivesse adquirido mais um sentido. Visão, audição, olfato, tato, paladar e leitura. Faz todo o sentido (valendo o trocadilho), uma vez que a leitura nos oferece mais um meio de absorver o mundo externo. Também uma função vital, porque ininterrupta.